Arquivo do mês: novembro 2008

troço

é, foi isso que escrevi. um troço cheio de ressentimento com o mundo e a vida e tudo mais. como um romântico. mas o lance de tentar fugir da realidade, da ‘vida real’ começou bem antes deles, n’est ce pas? com o primeiro sujeito que inventou o primeiro mito pra explicar algo que não entendia ou não aceitava como realidade.
 
‘a vida não devia ser assim!’ ele deve ter dito, brandindo a pedra que matou seu irmão, ou tentando regurgitar o fruto envenenado que a mulher lhe deu. tá vendo? as mulheres são diferentes. elas aceitam as coisas como são. ‘bom, isso aqui vai me tornar mais sábia? o que são uns anos a mais de vida sem sabedoria?’ e deu uma dentada gulosa, o suco escorrendo por seu queixo perfeito, recém-fabricado.
 
a oferenda recusada é uma justificativa. a serpente tentadora outra.
 
a vida fede. a gente joga perfume com explicaçõezinhas fáceis e tal. a gente se põe no topo da cadeia alimentar que nós mesmos bolamos. ah, sim, temos ‘inteligência’, somos ‘conscientes’ e aonde chegamos com todas essas vantagens? o que deveria ser uma ferramenta evolutiva tornou-se prisão.
 
e tentamos escapar dela.
 
‘eu sou um ex-escritor em recuperação. não escrevo ficção há seis meses.’ e se sente melhor.
 
quem escreve ou lê ficção quer escapar da vida, da realidade. mas não há escapatória. não exercemos controle. o controle ou a obsessão pelo controle é decorrente de trauma na fase anal. freud disse, não eu. confie em freud. venere freud. colecionar é outro jeito de exercer controle. bom, não, obrigado. você entende? tem a ver com reter. em casos extremos ganha o nome de disposofobia.
 
não importa se a ficção é o mito ou a música, a ‘cristalização do tempo’, como queria lévi-strauss, que seja um jogo qualquer, cinema, tevê, religião, enfim…
 
temos medo do mundo que nos cerca.
 
queremos sair.
 
deixar a gaiola.
 
me pergunto o que aconteceria com os ultraromânticos se eles soubessem que a morte já estava se acomodando em seus pulmões, formando lindos tubérculos, enquanto desfiavam louvores em verso à ela. ‘morte como fuga da vida’. claro!
 
as bactérias agradecem. e nós devíamos agradecer a elas. graças a elas somos capazes de digerir o que comemos. as bactérias são a forma mais bem sucedida de vida. elas sabem como as coisas são mesmo sem ‘inteligência’ ou ‘consciência’. na metáfora evolutiva de que mais gosto, tempo é equiparado a espaço e os bilhões de anos da vida na terra equivalem a um quilômetro. a vida humana existe há dois centímetros.
 
somos pequenos desse jeito e ainda assim nos autocoroamos como o ápice da evolução.
 
já as bactérias, que não fazem idéia de sua importância, estão aí praticamente desde que o mundo é mundo. elas não dão a mínima pra porra nenhuma!
 
isso é que é vida!
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grrrr

 
eu sei que pode parecer ridículo, que no mais das vezes minhas pretensão e arrogância (demasiado humano, no less!) me fazem parecer o que de fato não penso ser, que meu gosto estético-artístico-bullshítico é no mínimo arbitrário, mas aí vai:
 
eu tenho comprado gibis da Panini. mais esquisito ainda, tenho gostado de lê-los. além dos que Grant Morrison escreve (imbatível, como sempre).
 
não sei se vocês viram, mas essa editora tem publicado uma coleção de reedições de hqs ‘clássicas’ dos personagens medalhões da DC. os parênteses aí não são gratuitos porque tem umas tranqueiras dos anos 80 e 90 que eles enfiam junto com hqs mais interessantes tentando convencer o leitor de que o rótulo é cabível.
 
dessas reedições, a que é de longe mais cool é a do FLASH. quem acompanha CIDADE sabe que sou fã do personagem e até dei um jeitinho de colocar um look-a-like na trama.
 
cara! tem pelo menos duas histórias do John Broome na edição! John Broome é o equivalente quadrinhístico de Lewis Carroll, André Breton e Eugène Ionesco, porra!
 
no final de uma de suas histórias, Barry Allen olha na direção do leitor e FALA COM ELE! em outra, acho que com roteiro de Cary Bates, o Flash encontra com Julles Schwartz, editor da DC na época e pede ajuda dele pra voltar à sua dimensão de origem! e, no final, Julles fica se perguntando que tipo de hq resultaria se ele resolvesse relatar os ‘acontecimentos’.
 
Broome, Schwartz and the like são os ancestrais dos meus autores contemporâneos preferidos. nas histórias compostas pelos sujeitos, valia tudo! ah, claro que não se pode esperar o uso da linguagem seqüencial de que um Eisner foi capaz uma ou duas décadas antes, mas é diversão nobrainner garantida.
a maior qualidade encontrada nas hqs de super-heróis é o escapismo. não precisam nem prestar atenção no que digo, leiam AS INCRÍVEIS AVENTURAS DE KAVALLIER & CLAY, do ganhador do Pullitzer Michael Chabon, que acerta em cheio reciclando as biografias de Siegel & Shuster e dando, não só à literatura mas também aos quadrinhos, o super-herói definitivo com o qual leitores de hqs de supas podem identificar-se sem maiores problemas: o Escapista!
claro que há sempre a possibilidade de enxergar metáforas, mitos e toda a merda que se quiser imaginar nesse tipo de hq, perfeitamente aberto ao repertório do leitor. pena que a maioria dos autores de quadrinhos de supas hoje em dia leve a coisa tão a sério e queira acrescentar um verniz desnecessário de ‘realismo’ (rá!) ao que deveria ser diversão no sentido mais estrito da palavra.
 
mais que fã de histórias em quadrinhos, sou fã de metalinguagem em qualquer mídia.

peau

‘amor à flor da pele’ (In The Mood of Love) é sobre beleza, acho. prestenção no ‘mood’ e seus significados.
 
não só a beleza oriental-misteriosa-cool de Tony Leung e Meggie Cheung… já tinha visto ambos em HERO, interpretando, también, um casal. Mas a aura dos anos 60, o cabelo (brilhantina?) de Leung obedecendo a uma simetria brutal, gravatas estreitas, ternos bem cortados e a beleza ofuscante de Meggie (ah, Meggie!), uma Jackie orientalizada, sempre discretamente vestida e mesmo assim ancorando o olhar que não pede por mais pele, só por mais Meggie.
 
até o cenário deprê, claustrofóbico, da Hong-Kong dos 60, todo estreito, apertado… exterior quase sempre chuvoso, mostrado só à noite… até isso é bonito, ou pelo menos ganha contornos de beleza por causa do olho de quem vê e quem vê, absolutamente, em primeiro lugar, a um filme é seu diretor, que convida o espectador a compartilhar de sua visão. não faz lembrar aquela questão (zen?) ‘quem é o mestre que faz a grama verde?’
 
o que se passava na China de então é comentado quasi-subliminarmente… um sumário breve no começo, em forma de texto, não muito mais que isso.
 
é uma história de amor? sim, quer dizer, parece ser, tenho certeza relativa de que é. de quem com quem é uma questão completamente diferente.
 
as personagens de Leung e Cheung acham que seus respectivos cônjuges estão tendo um caso. encontram um no outro alívio(?), cumplicidade(?)… o que me deixou apaixonado pelo filme é que eles atuam dentro de suas atuações. a personagem de Cheung interpreta para a personagem de Leung o papel de sua esposa infiel(?) e vice-versa. em determinado momento eles interpretam ambos cônjuges. mas estão interpretando ou estão sentindo?
 
acho que não dá pra ser mais cool que isso. é a mesma sensibilidade do Pessoa e seu ‘fingidor’.
 
mesma?

anormal

geralmente há um plano, ao menos parcial, do que vou escrever aqui quando sento pra digitar uma entrada.

hoje não. o estresse de minha vida secular levou, mais uma vez, a melhor sobre minha saúde e desde segunda as crises voltaram. objetos que costumavam ficar parados, o chão que me habituei a pisar, se recusam a comportar-se como de hábito. vertigem, náusea e tudo mais.

tento permanecer deitado tanto quanto possível e, pra minha sorte, tudo é mais estável quando minhas costas estão firmemente alicerçadas no sofá… o que facilita A atividade que mais me agrada: ler.

este fds terminei de ler FUN HOME. é uma hq indie típica dos 90 em que a autobiografia impera. não que isso seja mau, nem que a hq seja mesmo dos anos 90 (foi publicada aqui este ano, nos eua ano passado, ganhou um eisner et al). a primeira vez que folheei o livro pensei que ia ser uma leitura tediosa, cheia de referências livrescas que estariam ali só pra provar quão letrada a autora é. acho que tava certo quanto às referências, mas não quanto ao uso que a autora faz delas e tampouco quanto ao tédio advindo do mergulho na vida pregressa de Alison Bechdel. é uma história bastante pessoal de descoberta. aí você pode escolher o tipo de descoberta ou aceitar a forma que a autora optou usar e absorver o lance como um todo, que é o ideal. os desenhos são muito, muito bacanas. a narrativa em primeira pessoa é ótima, convincente, literária mas sem esnobismo… às vezes tive a impressão de que a autora quis se distanciar do material sobre o qual trabalhou, tratá-lo com certa impessoalidade e é até compreensível que tenha adotado essa atitude… mesmo assim, por causa disso, apesar disso, a história é comovente. quem quiser pode fazer uma leitura freudiana. quem quiser pode ler como a ‘jornada do herói’ campbelliana. acho que é essa a graça desse gibi: a multiplicidade de leituras.

desenterrei minha cópia de ALICE IN SUNDERLAND, do Bryan Talbot, logo depois de terminar a leitura de FH. meio que por conta de a autora de FH chamar-se Alison… essa terminação com o sufixo ‘son’ em inglês me parece mais que mera coincidência.

li metade de AIS e quero mais (e vou ter, já que ainda falta ler metade). Talbot sobrepõe história, ficção, autobiografia, biografia, bibliografia, geografia, biologia e mais trocentas disciplinas diversas pra contar as origens do lugar onde vive, de Lewis Carrol, Alice Liddell e das histórias fantásticas derivadas dessa mistura… e nem mencionei a arte do cara, que, pra mim, é parte tão integral do livro que NÃO PODE ser só mais um item numa lista.

fim da transmissão.

por enquanto.

grande clã #2

dê uma olhada aqui pra ler uma resenha. o camarada Guilherme, que editou a revista, fez um excelente trabalho. leia mais sobre o gibi e seu conteúdo em seu blog.

Origens

bom.

esta é, literalmente,  uma entrada pra quem acompanha as peripécias de Lucas Profit no LABIRINTO. as idéias que originaram a trama CIDADE já estavam fermentando em algum lugar há tempos e este aqui é seu ponto de partida.

um conto que escrevi em 2004, originalmente pra fazer parte do MUNDO PERDIDO, iniciativa que não deu muito certo, mas juntava pessoas interessantes de se ver trabalhando.

é o tipo de coisa que acontece quando alguém me sugere uma idéia. Primeiro Contato  devia ter sido um de uma série sem término previsto. como não consegui me livrar dos conceitos que pipocaram na cachola, eles viraram pano de fundo pra segunda novelinha do sr. Profit.

agora vá lá conferir, dê boas risadas e, se lhe for conveniente, comente.

anti

Sempre tive dificuldade com esse tipo de coisa. Eu faço, mas não me sinto digno de dizer que sou. Sabe-se lá por quê. Pelo menos posso ser taxativo nisso: eu não sei. De qualquer forma, um tempo atrás fui convidado pelo Matheus Moura a dar-lhe uma entrevista. Já tinha acontecido uma vez antes, com o José Carlos Neves e, até agora, estou tentando entender o motivo… por quê essas pessoas querem me fazer perguntas? O que eu teria a dizer de relevante sobre o assunto em pauta? Também não sei as respostas pra essas.

 

É, eu escrevo. Às vezes acho que o faço por inércia, outras, que meu pai instilou em mim a necessidade de contar histórias, reforçada por uma pessoa conhecida que nos lia contos de fada na mais tenra infância, pela leitura voraz de histórias em quadrinhos e livros na pré-adolescência e uma professora de português do ginásio que nos deu a opção de escolher o que leríamos.

 

Escrever não me torna um escritor.

 

Um escrivão de polícia escreve. Ele não é considerado escritor.

 

Paulo Coelho escreve. Ele não é… ops! Ele é! O cara faz parte da A.B.L. e tudo mais, não? “O principal intelectual brasileiro”, suas próprias palavras, em entrevista dada à Playboy este ano.

 

Bom, que se dane.

 

Se é pra ser alguma coisa, quero ser um anti-escritor. Quero profanar a idéia de literatura que as pessoas têm. A idéia quadradinha, sempre no molde, sempre discernível até com um telescópio.

 

Puta merda! Quanta pretensão, héin?

 

É uma das vantagens de não ganhar um centavo com o ato de escrever, sabe? Não há necessidade de cumprir expectativas alheias. Sequer preciso cumprir minhas próprias expectativas.

 

Saúde pra todos!

 

E, antes que me vá pro limbo por tempo indeterminado, vocês dois aí que lêem essa joça (ego, super-ego, talvez o Id), visitem a Toka, leiam os delírios e fiquem à vontade pra tirar sarro.