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de vez em quando, quase nunca

Neil Gaiman trapaceia mais uma vez.

daria uma boa manchete, não?

rárárá

tudo começou numa noite escura e tempestuosa, no começo desta semana, quando li num site que, durante a turnê de divulgação de seu novo livro, ele teria soltado algumas informações a respeito da minissérie que está desenvolvendo e que servirá como prequel pra Sandman.

quem já conversou comigo sabe que gosto de algumas histórias que Gaiman escreveu mas tenho reservas com relação a um outro tanto de sua produção. enquanto gosto bastante de seus quadrinhos (com algumas exceções de que não gosto de jeito etc) e de sua prosa curta, a maior parte de seus poemas e romances nada me dizem. de vez em quando, quase nunca, encontro um de que gosto.

então, certo, Sandman não é minha prioridade aqui, mas o livro que o dito cujo divulgava, O OCEANO NO FIM DO CAMINHO. segundo Gaiman, escreveu o livro pra mulher atual enquanto estavam separados em trabalhos diferentes e, ainda segundo ele, a tal mulher não gosta de fantasia. então saltei pro que me pareceu óbvio: se você escreve (e dedica) um livro com determinado leitor, bem específico, em mente e sabe de antemão do que a pessoa gosta e desgosta, então o quê?

o livro já estava aqui em casa mas não era uma das minhas leituras prioritárias – sei que parece incoerente com o que disse anteriormente mas lembre-se do “de vez em quando, quase nunca”, as duas boas surpresas da prosa longa do cara, ANANSI BOYS e THE GRAVEYARD BOOK – mas pensar que leria uma novelinha do Gaiman que não fosse fantasia e com a sugestão de que teria elementos autobiográficos me fez passar algumas horas dos últimos dias na companhia do livro e, claro, nenhuma surpresa, a coisa toda está encharcada em fantasia.

tem um OCEANO dela no livro.

talvez até desgostasse menos do material se não me sentisse tão… lesado? enganado? ludibriado?

tem elementos interessantes, claro, e conforme as refeições iam se acumulando durante a narrativa, comecei a lembrar da importância que a comida tem na obra de Eça de Queirós e senti falta do bom e velho Realismo/Naturalismo.

ver o que consigo desencavar aqui em casa pra limpar o palato.

 

ideal x real

Em 2007, depois de uma febre cerebral que fritou boa parte de meus neurônios e fodeu com as poucas sinapses funcionais que ainda tinha, escrevi um texto com ajuda e insights de Jean Okada que tentava divisar qual seria o ‘formato’ (ou idioma) por natureza das hqbs.

Concluímos, e isso devido em grande parte às sacadas do sr. Okada, que a história curta seria o ideal. O assunto não ficou jogado às traças, pelo menos não na minha cabeça, mas toneladas de caraminholas e uma ou outra tentativa frustrada de fazer decolar um projeto cada vez mais sintético de quadrinhos (iniciado com histórias fechadas com número de páginas reduzidíssimo que tornaram-se tiras com tema recorrente e personagens que se revezavam ou só faziam uma aparição) me desviaram de avançar um pouco mais na direção do que seria o mais adequado em termos de publicação.

A história curta, claro. Não que a história de como cheguei a essa conclusão seja curta, mas a conclusão é, justamente, a história curta. Dada a imprevisibilidade de aceitação das publicações tupiniquins, da volatibilidade do público leitor e de trocentas outras variáveis, produzir hqs fechadas e com poucas páginas seria o melhor.

Trocando idéias com um colega roteirista (que trouxe à baila uma série de outros entraves que impedem a viabilização do plano ‘editor+equipe criativa do começo até o fim’) vi reforçado o conceito de que o tipo de antologia que talvez funcionasse com aquele grupo de indivíduos que se propõe a trabalhar dentro de certa organização e seguindo padrões de qualidade pré-estabelecidos, seria uma de personagens recorrentes.

Histórias de 8 páginas, autocontidas, com personagens que apareceriam na edição subsequente em outra história, também autocontida. Então, uma antologia deste tipo teria, sei lá, 3 séries concomitantes, de personagens recorrentes, totalizando 24 páginas de quadrinhos por edição, ao invés de as equipes criativas investirem seu tempo no desenvolvimento de histórias fechadas de personagens que desapareceriam a seguir, ao fim da narrativa.

O termômetro de popularidade das séries/personagens/equipes criativas seria a web e, claro, as vendas. Nada impediria que os leitores tivessem essas hqs disponíveis online. Até hoje a tese do McCloud de micropagamentos não foi posta à prova, talvez os ases da programação pudessem dar um jeito nisso, se tivessem estímulo pra isso e pudessem ser cooptados como parte da equipe.

Parece que alguma(s) pessoa(s) não sacaram o modelo proposto. Reitero: é de uma editora independente, uma sociedade limitada composta por autores independentes que, sabedores das dificuldades de se produzir uma história em quadrinhos, assumiriam papéis que iriam além daquele já desempenhado. Uma editora indie (cooperativa) que pusesse em prática o modelo de grandes editoras, de ‘linha de montagem’, mesmo.

Evidente que, como dito na entrada anterior, quadrinhistas independentes trabalham com quadrinhos em suas horas vagas, portanto não teríamos os mesmos prazos de uma editora grande. Uma publicação trimestral, quadrimestral ou semestral, que tivesse garantida sua continuidade (quanto menor o tempo entre uma edição e outra, maiores as chances de que a marca e/ou personagens se fixem na memória do leitor) seria uma inovação.

É esse o modelo que os ingleses de que falei na entrada anterior adotaram. Claro que fazer com que pessoas que se enxergam como artistes e profissionais consumados dos quadrinhos (mesmo não tendo publicado coisa alguma com uma editora qualquer) concordem em assumir papéis que julgam de menor importância, como fazer letras, revisão, diagramação etc., mesmo que sejam bons nisso é mais ou menos como convencer o grupo a ter o mesmo sonho ao mesmo tempo. Como naquela hq do Gaiman.

Ainda é um sonho.

São só idéias.

Se alguém decidir usá-las, ótimo. Se alguém quiser fazer diferente, excelente.

mais uma vez

sabe quando as pessoas vivem falando de coisas que teriam feito e que cê sabe de antemão que se trata da mais pura e simples balela, encheção de lingüiça e coisa e tal?

lembro de ter lido numa entrevista com um desses roteiristas britânicos que são praticamente unanimidades (é tu mermo, Neil!) que ele teria redefinido ‘a gramática’ das hqs apra contar as histórias que queria contar.

embora concorde que, sim, ele é um bom escritor que, sim, fez pelo menos duas hqs memoráveis (SIGNAL TO NOISE e MIRACLEMAN: THE GOLDEN AGE – não inteiro, mas os segmentos SPY CITY e NOTES FROM THE UNDERGROUND) tenho que discordar que tenha feito qualquer coisa de diferente com a linguagem dos quadrinhos. na minha concepção, linguagem dos quadrinhos ou arte seqüencial ou como quer que queira chamar, é a sinergia de elementos que vão além da palavra pura ou da ilustração pura com a finalidade de narrar algo visualmente.

linguagem dos quadrinhos inclui tudo, até o que não é visível (o espaço vazio entre painéis) ou audível/legível (o silêncio: repare em como as histórias do Neil são verborrágicas); onomatopéias, ângulos inusitados (veja Paul Pope pra encontrar exemplos disso), a porra toda.

antes de morrer pro mundo das hqs eu tinha o prazer de conversar por horas com um camarada desenhista que as pensava de modo muito parecido e chegamos a usar o termo ‘caligráfico’ pra descrever o estilo de alguns de nossos desenhistas-fetiche.

porque, e esse é o ponto em que queria chegar desde sempre, contar uma história visualmente utilizando a linguagem dos quadrinhos implica, e essa é só minha opinião, escrever usando esses elementos constituintes básicos como se fossem uma coisa só.

daí, talvez, eu pensar que os melhores narradores nesse meio, que usam essa linguagem, são os artistas completos, os que escrevem e desenham suas próprias histórias.

os autores.

evidente que algumas equipes alcançam resultados pra lá de satisfatórios (veja a entrada anterior pra ter um exemplo), mas pouca gente consegue chegar no nível de, sei lá, Alex Toth ou Hugo Pratt, Flávio Colin ou André Kitagawa.

e o nível foi elevado novamente por David Mazzucchelli e seu ASTERIOS POLYP.

terminei de ler o material hoje, ainda não digeri, mas é uma das hqs mais entusiasmantes no uso que faz da linguagem que já vi.

parafraseando as cinesséries e gibis ruins da gringa:

to be continued…