Arquivo do mês: novembro 2009

Granted!

tio Steve fez de novo.

na coluna desta semana o bom velhinho vai f-u-n-d-o  nas possiblidades quase nunca exploradas da graphic novel.

pra ler até o fim e considerar seriamente as informações do mais-que-habilitado crítico e o que seu uso implicaria.

camiño e peiote

como sou muito preguiçoso e as duas revistas publicaram hqs que cometi, pedi pro camarada Zé R resenhá-las. aconselho veementemente que você visite o blog do cara, muito mais comprometido com ações do tipo que só pratico em modo diletante.

CAMIÑO DI RATO/ PEIOTE

Quadrinhos independentes, alternativos ou underground desempenhavam importantes papéis político e cultural nos anos 1960 e 1970, quando se contrapunham à caretice da indústria dos comics. Surpreende o fato de que, na era da internet, o gênero tenha não somente sobrevivido como proliferado, inclusive no Brasil.

Duas publicações mais recentes Camiño di Rato #5 e Peiote #1 não me permitem extrair qualquer inferência indutiva válida sobre esse mercado editorial outsider. Mas, ao menos, dão uma temperatura da produção atual, comparada com aquela da segunda metade dos anos 1980, quando o país mal havia saído da ditadura e fanzines eram distribuídos pelos Correios em troca de selos.

Sem o contexto que gerou o movimento, qual a finalidade das revistas e fanzines independentes de hoje? Ser laboratório para experiências com a linguagem, óbvio, além de espaço de treino de narrativas e domínio da técnica para neófitos na arte.

O primeiro ponto positivo das duas revistas, portanto, é a atitude dos autores e editores de expor seus trabalhos ao julgamento alheio, quando para muitos seria mais fácil esconder o “talento” na gaveta e amargurar o criador incompreendido. Não temos outra opção, senão publicar.

Dito isso, a crítica que faço, num âmbito geral, é que parece haver um descompasso entre as Hqs adultas que ganharam espaço nas livrarias (boa parte também fruto do underground do século 20) e o universo teen que ainda prevalece nas independentes. Histórias pseudofilosóficas, com a profundidade de uma placa de Petri, acompanhadas de um papo modorrento sobre magia, drogas psicodélicas e teoria da conspiração, a meu ver, é sinal de que o iogurte está com prazo de validade vencido. Em outras palavras, o discurso azedou. Será que não está na hora de trocar a cartilha do titio Moore?

Caminhos alternativos

Camiño di Rato e Peiote chamam atenção pelo formato revista e zelo na edição do material. Não é um trabalho nada fácil selecionar quadrinhos de qualidade e publicar uma revista, mesmo com as facilidades tecnológicas atuais. O próximo desafio, para essas publicações, será manter a periodicidade (a Camiño está no quinto número – nota do Abs: isso é coisa do Mathieu… na verdade o # na capa é um 2 invertido).

Para quem tem mais de 30, Camiño vai lembrar a finada Chiclete Com Banana, numa versão mais ligth (no sentido físico, sobretudo, mas não somente).

Em apenas duas páginas de “Domingo”, Marcelo D’Salete mostra segurança no traço e na narrativa. Com economia de texto e imagens, passa ao leitor os sentimentos de solidão e frustração que acompanham o fim de um relacionamento duradouro, sob o ponto de vista das coisas. Na partilha das coisas, aliás, o mais importante é o mais ausente.

Antonio Eder também chama atenção pelos traços pessoais, na descompromissada “Nostálgico é a Mãe”. Já o trabalho de Pablo Mayer, artista veterano, se valoriza em mãos firmes no roteiro, o que não é o caso, infelizmente, de “Fogo Que Arde Sem Se Ver”. Outro ponto alto da edição é a ilustração noir de D. Ramirez em “Filosofia Cotidiana”.

No primeiro número de Peiote destaca-se, à primeira vista, a qualidade gráfica, que inclui páginas coloridas. Jaum edita e assina metade do material publicado na coletânea, mais a capa. Sobre seu trabalho, desponta certo “retrato do artista enquanto jovem”, quer dizer, do quadrinhista em busca de identidade própria, não obstante a eficiência com que manipula os traços moebianos. Nos roteiros, o tom sarcástico mereceria investimento. A conferir futuros trabalhos.

Sustentam a revista os desenhos cheios de personalidade de Luciano Irrthum (“A Verdade”) e Law Tissot (“Ultraviolência”), a despeito das histórias anêmicas.

Por fim, indico as tiras de Abs Moraes & Jean Okada (melhor em cores), presentes em ambas as edições: “Zazás” (Camiño di Rato) e “Desvio” (Peiote). Não é segredo que a combinação de bom trato no texto com desenhos profissionais, conforme mostrado pela dupla, é a fórmula de uma HQ de sucesso. Por que então não seria esse o melhor caminho para as independentes aplainarem terreno próprio nos quadrinhos contemporâneos? Fazer roteiros sem pé nem cabeça e rabiscos psicodélicos não é requisito para ser underground. Não é feio ser bonito.

José Renato Salatiel

jornalista

gedankenexperiment

a primeira vez que li essa expressão foi num livro do R.A.W.
 
quase imediatamente usei-a no roteiro de uma ogn que escrevi a pedido de um camarada e que, como você sabe, nunca deixou de ser roteiro pra tornar-se hq. foi um dos primeiros pregos no caixão da minha vontade de escrever histórias em quadrinhos.
 
daí… o tempo passou. gosto de pensar que aprendi uma ou duas coisas a respeito de como escrever e me tornei algo mais parecido com um roteirista. menos passional, mais objetivo e coisa e tal.
 
sim, sei o que é auto-engano.
 
mas por causa do meu famigerado ‘romance comic’ voltei a pensar no experimento mental. e na teoria do Hugh (Everett III) dos muitos mundos. e na teoria M. e em abelhas. abelhas são importantíssimas na minha autobiografia, apesar de eu quase nunca mencioná-las.
 
agora preciso voltar à prancheta e refazer um monte de descrições de quadro pra encaixar o que preciso e deixar o material o mais natural possível.
 
deve ser fácil quando estiver acordado de verdade e não funcionando à base de calor opressivo.

open letter to you

cê diz que precisa sentir pra fazer, que é um canal de expressão pra sua loucura, apaziguamento, catarse e insisto que formalize a coisa, torne-a uma segunda natureza, exercite-a, domine-a.
 
então, e só então, siga seus instintos. você os tem. não é todo mundo que faz tão bem o que você faz. a insistência é porque ainda faltam alguns recursos, falta mobilizar mais conhecimento e pensar nas conseqüências das ações.
 
mas você trava e corta comunicação e travo junto porque, no final do dia, acredito que insistir corresponda a te podar e limitar; porque apesar de soar autoritário, acredito em liberdade e você não está ou jamais esteve sob minha asa; não é minha mãe, filha ou mulher e, se fosse, por uma dessas contingências que estão além de qualquer controle, ainda assim não seria ‘minha’ ou eu não aceitaria essa noção com facilidade, já que não acredito em posse desse tipo.
 
então.
 
faça se quiser, mantenha pra si, quando puder ou simplesmente deixe de fazer… mas viva. aprenda. cada respiração é uma oportunidade pressa atividade e acho que é isso o que importa no final. e ignore o imperativo se puder.
 
interpessoalidade não é meu forte.
 
desculpa.

escaldado

o calor insuportável de 5ª não me preparou pro toró de hoje.

ainda quente demais. o ar condensando-se em vapor, globos oculares cozinhando ‘no bafo’, visão falhando.

café e cigarros à tarde, que estávamos convalescendo (não é o plural majestático, pode ter certeza… nenhuma majestade deste lado). descobri que sou alérgico a amendoim. garganta obstruída, dificuldade de engolir.

na última semana li ‘crônicas birmanesas’, do Delisle, que foi o que me fez pegar a cópia do 1984 pra conferir os ensaios. cê sabe que o Eric trabalhou na Birmânia por um tempo, antes de encher o saco e sair pela europa e ficar na pior. rendeu um livro legal, ‘dias na birmânia’. coisas.

a sensação térmica hoje era parecida com a que alguns autores descrevem em países asiáticos aterrorizantes. a chuva morna durou uns 15 minutos e me lembrou das monções.

e de um conto do Bradbury que, se não me engano, a E.C. adaptou pros quadrinhos. um planeta em que chovia perpetuamente. as missões tripuladas contavam com uma base, a única garantia de que não ficariam expostos aos elementos. mas nesse tipo de história as coisas precisam dar errado pra se ter o que contar, certo?

então imagine!

na minha história o coletivo passou e quando cheguei em casa já tinha terminado a chuva. um dos meus olhos ainda parece cozido. meu oftalmologista diria que não é um diagnóstico animador.

depois do último fds em que, mais uma vez, o ombro, acompanhado de perto por um par de vértebras, parece ter saído do lugar, me animei a fazer alguns exercícios e tentar salvar o que resta de funcional na carcaça que estou usando.

a parte engraçada é que funciona.

a desagradável é que não tenho certeza do que fazer quando a temperatura bate nos 42º. não quero arriscar um piripaque irreversível.

romance

hoje, depois de não sei quantas eras geológicas, fomos ao cinema assistir a 500 dias com ela.

é uma comédia romântica que não quer se assumir como tal. Joseph Gordon-Levitt é o ás na manga dessa produção. as críticas geralmente babam ovo da Zooey Deschanel, mas a interpretação da mina é burocrática.

prefiro ela como voz da pinguim de ‘tá dando onda’.

mas ver esse lance refrescou minha memória pros filmes do falecido John Hugues.

lembrei do porquê de ainda hoje gostar do Eric Stoltz. memória afetiva. plus: a história do filme ‘alguém muito especial’ é A.P.I. que deu certo. e eu não lembrava.

experiência x comportamento

daí tava fazendo o que digo pros outros sempre fazerem: reler o que foi escrito, limar impiedosamente o desnecessário e/ou acessório pra não prejudicar o fluxo do texto.

fiquei surpreso.

percebi que tanto a versão 2.0 de BORBOLETA quanto A.P.I. tem pouquíssimas palavras aparentes. o grosso do texto está no roteiro em si e mesmo essa parte ficou econômica em relação aos monstros que escrevia antigamente.

a diferença primordial entre uma história e outra é que BORBOLETA é basicamente o plot decupado sem quase nenhuma informação acrescentada e o tempo é regido pelos diálogos esparsos das personagens.

em A.P.I. estou, por enquanto, usando um narrador onisciente e recordatórios. até que a ação comece, pelo menos, e as personagens interajam.

daí cabe a elas o que acontecer a seguir. experiência x comportamento = drama. no bom sentido, claro. encarando hqs como teatro. São Will ia gostar disso, acho eu.