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sincro

terminei de ler BARBA-AZUL, as aventuras nada ordinárias de Sarkis Karabekian, pintor do surrealismo abstrato imaginado por Kurt Vonnegut, já há umas semanas e fiquei tão estupefato com os últimos parágrafos que fui tomado por uma amnésia decrescente até que pude lembrar do que mais me abalou.

veja só: Kurt usou a mesma lenda cigana que se encontra na origem de MARRETA (co-escrita com Marcio Massula Jr e que você pode ler aqui em doses homeopáticas ou baixando o .pdf na esteira lateral à direita sob Moraes’ Stuff) pra ilustrar (quase literalmente) um ponto obscuro da história da 2ª Guerra como testemunhada pelo velho Sarkis.

ainda digerindo a informação.

MARRETA, aliás, está na fundação da prosa nova que vem a seguir. é esperar pra ver.

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ausente

às vezes o trabalho do mundo secular demanda tanto que, quando afinal paro pra brincar com a keyboard por uns minutos, sou pouco mais que uma casca vazia com dedos.

depois da queda deixei de raspar o cabelo. há um par de semanas, de fazer a barba. claro que isso não melhora minha aparência. tampouco piora. tenho a mesma sorte dos homens de minha família. hediondez congênita. só fiquei mais peludo. exceto no topo da cabeça, onde os cabelos começaram a escassear.

continuo lendo as aventuras e desventuras de Karabekian, pintor do expressionismo abstrato americano inventado por Vonnegut e contemporâneo de Pollock e Rothko.

muita coisa com que me identificar. a narrativa apática, indiferente, de sua juventude. a decepção generalizada capaz de contundir (sim, não ‘confundir’) o leitor menos atento, a sátira swiftiana, o rancor subreptício, o desprezo pela ignorância (e, por favor, quem não sabe o que significa esta palavra, favor consultar um dicionário, já que hoje em dia a tendência é atribuir-lhe um novo significado).

tudo isso.

o problema, como sempre, sou eu, não os outros. os outros vivem suas vidas e pouco se importam como afetam os vizinhos. ou SE afetam.

importar-se, acho, é um erro recorrente… ou tema recorrente nessa narrativa sem coerência que chamo de vida.

Ohtake

sendo este um blog de nerd feito sob medida para nerds a possibilidade de haver confusão entre o nome Ohtake (como em Tomie ou Ruy, por exemplo) com o bem mais pop ‘otaku’ não me escapou.

é um primeiro parágrafo pra lá de justificado, n’est ce pas?

então, hoje, depois de dois anos de privar-me de visitar o Instituto supra, fui ver a exposição dos storyboards de Akira Kurosawa. inspiradora é uma palavra branda, anêmica, sem dentes pra descrever a qualidade não só da arte quanto da reflexão que acompanhava cada peça.

cenas de ‘sonhos’, ‘ran’ e ‘kagemusha’, só pra citar uns poucos, estavam lá, em cores (e isso é importante) vibrantes e designs inteligentíssimos (mais do que qualquer vã filosofia pode supor), pra encher meus olhos e minha imaginação e, talvez, com alguma sorte, aliarem-se a leituras recentes (‘a interpretação’ de Freud e a outa, de Artemidoro, mais um número recente de Mente & Cérebro) e fazerem surgir a mítica ideia pra algo novo, ainda não escrito.

não comentei, mas no último fds, enquanto folheava ‘a arte de ser desagradável’ no depósito de livros de uma amiga, encontrei sem procurar, olhando pra mim, cópias de ‘barba-azul’ e ‘galápagos’, do sempre inspirador Kurt Vonnegut. se você nunca experimentou o prazer da companhia desse senhor, a coleção LPM Pocket tem dois livros essenciais dele: ‘matadouro 5’ e ‘café-da-manhã dos campeões’ a preços pra lá de acessíveis.

de sábado pra hoje, entre trancos e barrancos, li metade de ‘barba-azul’, com um sorriso no rosto por reencontrar a simplicidade complexa do velho Vonnegut e sua observação aguda da ‘natureza humana’ (dois termos que, pra mim, postos juntos, formam um paradoxo hilariante).

mais estranho

ninguém precisa ler isto, já adianto. mas se chegou até aqui, por que não, certo?
 
meu humor muda. meu equilíbrio químico depende do consumo regular de uma série de substâncias (que todos sempre ingerem, by-the-by, nada que já seja considerado ilegal) e a percepção do mundo, do que me cerca e consumo por outras vias que não o aparelho digestivo, varia. ‘coisas da vida’, certo, Kurt?
 
então, a vida.
 
é, por exemplo, a vida. e a ficção. e o lance do ‘sentido’, o que quer que isso signifique pra quem quer que leia.
 
a vida é um fenômeno inexplicável. não tem muito mais que se possa acrescentar a respeito disso. por que aqui? por que naquele momento? por que estes elementos químicos, físicos, etc.? vida ‘inteligente’ é uma puta falácia. até sou capaz de engolir o conceito de vida autoconsciente, mas inteligente? o tempo todo? caaara!!! decisões idiotas são tomadas no afã do momento, geralmente baseadas em instintos, coisa mais primitiva, mas que, ironicamente, permitiu que chegássemos até aqui, este ponto hilário em que posso comunicar conceitos arbitrários eletronicamente usando esses simbolozinhos fonéticos a pessoas que nunca vi e (dependendo do avanço da miopia & estigmatismo), bem provável, nunca verei.
 
ããã. ainda acordado. ótimo.
 
tenho dois recortes de jornais na escrivaninha que me olham quase todo dia e pedem que os adapte pralguma forma de ficção. cheguei. pelo menos acho que sim. tenho dúvidas, às vezes só uma suspeita leve, às vezes quase certeza, mas acho que é aonde estava me dirigindo desde que abri o doc.
 
essas reuniões sabadeiras me ajudam a pensar de verdade. emprestar a memória dos manos e rodar idéias que me perturbam ou divertem e coisa e tal. senti falta hoje. mas a gente costuma falar sobre ciência (entra tudo nessa disciplina, mas principalmente física e biologia… com ênfase em evolução, psicologia evolutiva e ciências neurológicas), política (saiba que não falamos só de política partidária, embora este sabor não escape… coisas de cidade, estado ou país, o velho ‘esquema’ de uma mão lava a outra), psicologia (apesar de seu status altamente questionável como ciência) e um monte de banalidades, como se o clima permite o uso de sandálias abertas, saias curtas, enfim todo tipo de comentário que se espera de caras tomando cerveja (ou suco) e tentando se divertir.
 
adultos? ah, essa é outra falácia que inventamos pra lograr as crianças. ‘isso é coisa de adulto’, por exemplo. bom, em termos de maturidade biológica tem coisas que são só de adultos, mesmo, que pena… quando caras se juntam o ‘politicamente correto’ sofre, hm, um ajuste e se torna mais divertido.
 
ah, a coisa (Débora Bloch, Débora Bloch!… entrar em modo digressivo é torturante. perdão.) é exatamente esta.
 
a vida ou seu surgimento são obras do acaso. as pessoas seguem buscando sentido no mundo, apesar de quase nada, quase nunca, fazer sentido. mas sei lá, considerando as pessoas como personagens numa obra de ficção, talvez esta seja sua motivação… não importa.
 
o que pega pra mim é que a maioria das obras de ficção tem amarras, mesmo aquelas que dizem mostrar a tal ‘vida como ela é’, que as torna artificiais. mesmo quando alguém diz que seu ‘tema’ é o acaso, pode-se contar com convenções.
 
daí eu volto aos recortes de jornal e, apesar do estilo não ser dos melhores, remôo o clichê que discutimos sábado sim, outro não: viver por aqui é mais estranho que a ficção. as experiências, as pessoas, a ênfase no medo, medo total, medo insuperável…
 
e a gente ri. como crianças biologicamente maduras e nervosas. a gente ri e sorri e ergue o copo e brinda e tenta seguir as convenções e espera que tudo faça sentido de algum jeito em algum momento. às vezes é engraçado. quase sempre é engraçado. sempre é engraçado.
 
e estranho.