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vida de artista

roubei o que vai abaixo do blog do Frank Santoro no tumblr.com. a tradução, como é de se esperar, foi feita meia-boca, mas ainda faz algum sentido de onde o estou lendo… não sei se para outros vai cumprir o papel.

  1. Arte requer tempo – há uma razão pela qual é chamada de prática de estúdio. Ao contrário da crença popular, mudar-se para Bushwick, Brooklyn, este verão não faz de você um artista. Se, a fim de se tornar um, você tiver que compartilhar um espaço com cinco companheiros de quarto e servir mesas, provavelmente não vai fazer muita arte. O que funcionou para mim foi passar cinco anos construindo um volume de trabalho em uma cidade onde era mais barato para eu viver, e isso permitiu-me o precioso tempo e espaço de que eu precisaria depois da graduação.

    2. Aprenda a escrever bem e adquira o hábito de se candidatar sistematicamente a cada prêmio que você puder encontrar. Se não ganhar, continue se candidatando. Vivi do dinheiro de prêmios por quatro anos, logo que me formei.

    3. Ninguém lê declarações do artista. Aprenda a contar uma história interessante sobre o seu trabalho com que as pessoas possam se relacionar em um nível pessoal.

    4. Nem todo projeto vai sobreviver. Purgar regularmente, destruir está intimamente ligado à criação. Isto vai poupar tempo.

    5. Edite sozinho. Por mais que acredite no tropeço, eu também acho que ninguém precisa ver você fazê-lo.

    6. Quando as pessoas disserem que seu trabalho é bom fazer duas coisas. Em primeiro lugar, não acredite nelas. Em segundo lugar, pergunte: “Por quê?” Se puderem convencê-lo do motivo de acharem seu trabalho bom, aceite o elogio. Se não puderem convencê-lo (e a maioria das pessoas não poderá) descarte-o como superficial e reconheça que a maioria das más opiniões é feita por pessoas simplesmente repetirem que “gostam” de algo.

    7. Não pense nunca que você tem que abdicar de qualquer coisa a fim de ser um artista. Eu tive bebês e fiz arte e viajei e ainda tem um milhão de coisas que eu gostaria de fazer.

    8. Você não precisa de um monte de amigos ou curadores ou patronos ou muitos seguidores, apenas de alguns que realmente acreditem em você.

    9. Lembre-se de ter misericórdia de todos, quer eles possam ajudá-lo quer não. Isso vai trazer as pessoas para você uma e outra vez e ajudar a construir a confiança nas relações profissionais.

    10. E, finalmente, quando outras coisas na vida ficarem difíceis, quando você estiver passando por problemas familiares, quando estiver de coração partido, quando estiver frustrado com problemas financeiros, mantenha o foco em seu trabalho. Isso me livrou de cada coisa difícil que já tive de fazer, como um apoio que vai muito além de quaisquer noções tradicionais de uma carreira.

    “Teresita Fernandez, “Início de pronunciamento em VCU,” 2013
    (Via nickkahler)

Ensaio

o que chamou minha atenção para Eleanor Catton foi sua presença na FLIP, a divulgação do lançamento do tijolaço OS LUMINARES, um par de entrevistas breves em segmentos especializados do telejornalismo e uma semelhança tênue com outra mulher de sua faixa etária por quem me apaixonei, desapaixonei, apaixonei, desapaixonei… bom, é complicado.

na Bienal do Livro deste ano peguei uma cópia do supra e descobri, pro meu espanto, que havia outro dela já editado nestas plagas.

terminei de ler O ENSAIO há uma semana e saí da experiência sabendo que o livro dialoga com vários interesses pessoais meus além de alguns aspectos de experiência profissional.

o paralelo mais óbvio em que consigo pensar se dá com o filme A FLOR DA PELE, em que as personagens atribuem-se papéis e os interpretam,  contando com a dúvida do espectador (eles estão interpretando? desde quando? ou estão sendo eles mesmos? quando pararam de interpretar?) pra tornar a narrativa mais interessante.

mesma coisa com o bendito livrinho.

quem acompanha minha desculpa de blog sabe como ganho a vida (aaargh!) e também porque o tema, a origem da narrativa bifurcada me interessa: professor de música tem caso com aluna do ensino médio e toda confusão que daí deriva.

o tratamento dado por Eleanor não é o mais fácil nem o mais óbvio. as personagens questionam as relações de poder em funcionamento entre homem mais velho, mulher mais jovem e fazem perguntas interessantes: quem se perde, afinal? a menina ou o homem? quem sacrifica mais pra estar com o outro, quem corre mais riscos, quem aposta mais alto?

o escândalo sexual, apesar de ser o eixo sobre o qual as duas linhas narrativas se movem, não é o mais importante. o texto está carregado de questionamentos profundos a respeito da natureza e finalidade das artes (dramaturgia e música) e dos limites do real e do ficcional.

breve lista

oiaoiaoia…

pensei que tinha alguma coisa a dizer mas, como sempre acontece nesses momentos de semiepifania, a voz da razão me dá um chute nas bolas e me faz regressar a assim chamada realidade – or else.

ler ‘tiro no coração’ de mikal gilmore tem sido desafiante nas novas circunstâncias de trabalho em que preciso fingir que o exerço com um pouco mais de dedicação, então, são umas poucas páginas por semana quando tenho sorte, mesma fórmula aplicada a ‘o culto do amador’, com resultados similares. ‘o culto…’ é um livro que se lê em velocidade maior por causa do assunto e por se tratar de um ensaio muito objetivo e pouco literário. já ‘no coração’ é uma viagem autobiográfica com várias camadas significativas, bastante bonito e comovente. e, falando em viagem, convém lembrar que na pilha dos que vão e voltam, se revezam dia a dia, entra também ‘doença como metáfora’, de susan sontag, que me fez relembrar uma das muitas histórias planejadas e abandonadas já há um tempo.

basicamente?

lista de leitura.

e nem falei que já quase cheguei a um terço de ‘the anatomy of melancholy’. preciso começar a pensar no que vou ler quando tiver terminado este em 2016.

horrores cósmicos e coisas assim

aconteceu novamente seguindo o mesmo padrão: o mínimo de distração é bastante pra desencadear, melhor, causar uma ideia.

já tinha dito em outra entrada que venho acompanhando com curiosidade a nova antologia da hbo, TRUE DETECTIVE, e mencionei uma ou outra das diversas referências literárias (nem tanto, já que Lovecraft e Bierce, por exemplo, são considerados escritores menores apesar de o legado de terror de ambos permanecer firme e forte, moldando até tendências de mash-up de gêneros…).

um dos acidentes me ocorreu hoje, enquanto lia a introdução da coletânea nacional VISÕES DA NOITE: o fim de Bierce é misterioso, não tanto um fim, mais como um início de lenda. inevitável perguntar se, numa dream quest qualquer, poderíamos ou não esbarrar com o velho sentado sob a sombra de uma árvore que cresce sobre uma sepultura… talvez seu sonho de Carcosa tenha um espaço só pra si na sempre mutável paisagem dos sonhos e, por que não?, fosse possível acender um cigarro onírico enrolado com mãos de sonho e prosear por alguns momentos, o que o REM permitisse, a respeito de sua estadia no Brésil e sua suposta cobertura da rebelião gaúcha…

o outro acidente começa com várias informações que vão se sobrepondo:

– a leitura de THE RAVEN, reescrita de Lou Reed de vários textos de E. Alan Poe, ilustrada por, não outro, Lorenzo Mattotti;

– O TEATRO E SEU DUPLO, de Artaud;

– OS CANTOS DE MALDOROR, de Lautreamont;

– INFERNO, de Strindberg;

– e a lembrança surda de EUREKA!, o texto bastardo de Poe, sua pretensão de desvendar o cosmo dedicada a Humboldt, que deu em nada mas é um poema e um poema de Poe.

e pensei: se houvesse um universo que seguisse a física ou a lógica ou o que seja estabelecidas por Poe em sua cosmologia, quanta graça não seria possível fazer? que horrores cósmicos não seriam parte de sua fauna e flora? quantos cidadãos desesperados e à beira da loucura não circulariam pelas ruas em busca de uma ajuda que nunca chega, ignorados por transeuntes reptilianos, adoradores de polvos e lulas?

hm?

pois é.

mas ainda tá faltando foco.

grist

jackstaffelenco

se fosse tentar o velho truque da cronologia a fim de demonstrar minha seriedade ao tratar desse autor, o correto seria começar falando de ST. SWITHIN’S DAY, trampo do Paul Grist com o Grant que até hoje tem lugar na minha estante – antes tinha também no coração, agora meio ressecado, encarquilhado e encolhido demais, tipo, uma passa de coração ou um coração mineralizado ou besteira qualquer do gênero que me abra espaço pra fazer o que quero de fato aqui: tergiversar ou, como é que se diz?, encher linguiça -, primeiro gibi com arte do sujeito que caiu na minha mão.

a essa altura, no entanto, você já percebeu que cronologia é o que menos interessa, não?

bom, não chega a ser problema. não pra mim, pelo menos.

o fato é que Paul Grist criou um dos meus gibis de super-heróis preferidos há uns bons anos (não lembro quando, ok?) com Jack Staff, usando mais ou menos os mesmos critérios e protocolos que Michel Fiffe – sampling, lembra? claro que não, faz tanto tempo! – com um twist: as origens da criação do gibi são as típicas dos criadores britânicos do fim dos 70 e começo dos 80, que remetem ao modo irregular como os gibis americanos chegavam à Inglaterra. Grist lia um do Capitão América em que o Barão Sangue (Baron Blood, aliteração original perdida, porra!), vilão inglês ou coisa parecida, que enfrentava o Union Jack (sim, aquele peão com uniforme que repetia a padronagem da bandeira inglesa) só que era uma hq em duas partes e terminava num cliffhanger… que o sujeito terminou nunca lendo pois o gibi seguinte não deu as caras no seu país!!!

e daí?

daí ele resolveu recriar a história e dar um desfecho a ela trocentos anos depois.

enter Jack Staff.

pegando como base o super-herói britânico patriótico (um cara que veste bandeira TEM que ser patriota!), Grist foi construindo seu universo reutilizando vários personagens de quadrinhos ingleses mais ou menos esquecidos, com nomes novos e atitudes mais modernas mas que continuavam exatamente os mesmos ao fim do dia. não é fan fiction (tá, até certo ponto é, sim) como estamos acostumados a ver mas algo mais interessante (e repito) com um autor (cartunista) usando personagens pré-existentes, perfeitamente reconhecíveis pelo leitor (que já traz uma carga afetiva pra história – ele sabe quem é aquele cara e costumava gostar de suas histórias) e ganhando tempo, limando arestas desnecessárias da narrativa, criando uma textura diferente do previamente conhecido com efeitos admiráveis (do mesmo modo que Fiffe, Grist ama a linguagem dos quadrinhos e a utiliza com máxima eficiência).

JackStaff01

pra variar, tá dando a hora da soneca e ainda preciso dar jeito numas últimas tarefas do dia antes de me entregar a sauna inconsciente da qual ignoro se acordarei, portanto viva com o fato de o texto não estar do jeito que eu gostaria que faço o mesmo.

sláinte!

sampling

copra01

 

ensaiando escrever a respeito de dois gibis ou dois autores (ou três, já não sei bem) há tempo suficiente pra saber que dificilmente vou fazer valer o esforço.

então

bem mais fácil

escrevo qualquer merda, impensada mas não impensável, sobre o que gostaria de escrever de fato. um truque mental (aprendido em livros, entrevistas com autores que admiro e coisas assim) me orienta a tentar pensar como tal escritor se quiser alcançar o efeito X (que nada tem a ver com mutantes mas, se a memória não falha completamente – e pouco importa que falhe – representa a incógnita) com a peça que estiver produzindo.

de qualquer jeito

encomendei, recebi e li no mês passado os dois #s de COPRA COMPENDIUM, de Michel Fiffe. pra quem não sabe, Fiffe vem fazendo algo parecido com fan fiction mas em que prefiro pensar como um som sampleado tão profundamente que torna-se outra coisa apesar de manter certo dna do original. Fiffe, como eu, leu bastantes quadrinhos dos 80 e parece ter muito afeto por alguns deles. Claro que suas influências no mundo dos quadrinhos vão mais longe que isso e incluem, entre outros, Steve Ditko. o grupo título é uma espécie de SUICIDE SQUAD (pense em John Ostrander e Luke McDonell) que tem aliados como THE PUNISHER e DOCTOR STRANGE, SHADE THE CHANGING MAN (ambos de Ditko) e inimigos semelhantes a BROTHERHOOD OF DADA, THE MARAUDERS e assim por diante. vilões e heróis dos dois grandes monopólios dos quadrinhos de super-heróis usados pra contar uma história que o cartunista QUER contar e produz sozinho, do roteiro à colorização e às letras, mensalmente, numa tentativa de ser ele próprio a linha de montagem, verdadeiro auto-experimento dos limites da resistência humana. os seis números colecionados nesses dois compêndios são legais o bastante pra me fazer querer saber como continua e, também, mais a respeito do sr. Fiffe. cabei de descobrir que o 3º foi lançado agora em novembro.

mais quando houver mais

provável que antes do que eu gostaria.

de vez em quando, quase nunca

Neil Gaiman trapaceia mais uma vez.

daria uma boa manchete, não?

rárárá

tudo começou numa noite escura e tempestuosa, no começo desta semana, quando li num site que, durante a turnê de divulgação de seu novo livro, ele teria soltado algumas informações a respeito da minissérie que está desenvolvendo e que servirá como prequel pra Sandman.

quem já conversou comigo sabe que gosto de algumas histórias que Gaiman escreveu mas tenho reservas com relação a um outro tanto de sua produção. enquanto gosto bastante de seus quadrinhos (com algumas exceções de que não gosto de jeito etc) e de sua prosa curta, a maior parte de seus poemas e romances nada me dizem. de vez em quando, quase nunca, encontro um de que gosto.

então, certo, Sandman não é minha prioridade aqui, mas o livro que o dito cujo divulgava, O OCEANO NO FIM DO CAMINHO. segundo Gaiman, escreveu o livro pra mulher atual enquanto estavam separados em trabalhos diferentes e, ainda segundo ele, a tal mulher não gosta de fantasia. então saltei pro que me pareceu óbvio: se você escreve (e dedica) um livro com determinado leitor, bem específico, em mente e sabe de antemão do que a pessoa gosta e desgosta, então o quê?

o livro já estava aqui em casa mas não era uma das minhas leituras prioritárias – sei que parece incoerente com o que disse anteriormente mas lembre-se do “de vez em quando, quase nunca”, as duas boas surpresas da prosa longa do cara, ANANSI BOYS e THE GRAVEYARD BOOK – mas pensar que leria uma novelinha do Gaiman que não fosse fantasia e com a sugestão de que teria elementos autobiográficos me fez passar algumas horas dos últimos dias na companhia do livro e, claro, nenhuma surpresa, a coisa toda está encharcada em fantasia.

tem um OCEANO dela no livro.

talvez até desgostasse menos do material se não me sentisse tão… lesado? enganado? ludibriado?

tem elementos interessantes, claro, e conforme as refeições iam se acumulando durante a narrativa, comecei a lembrar da importância que a comida tem na obra de Eça de Queirós e senti falta do bom e velho Realismo/Naturalismo.

ver o que consigo desencavar aqui em casa pra limpar o palato.