Arquivo do mês: março 2014

breve lista

oiaoiaoia…

pensei que tinha alguma coisa a dizer mas, como sempre acontece nesses momentos de semiepifania, a voz da razão me dá um chute nas bolas e me faz regressar a assim chamada realidade – or else.

ler ‘tiro no coração’ de mikal gilmore tem sido desafiante nas novas circunstâncias de trabalho em que preciso fingir que o exerço com um pouco mais de dedicação, então, são umas poucas páginas por semana quando tenho sorte, mesma fórmula aplicada a ‘o culto do amador’, com resultados similares. ‘o culto…’ é um livro que se lê em velocidade maior por causa do assunto e por se tratar de um ensaio muito objetivo e pouco literário. já ‘no coração’ é uma viagem autobiográfica com várias camadas significativas, bastante bonito e comovente. e, falando em viagem, convém lembrar que na pilha dos que vão e voltam, se revezam dia a dia, entra também ‘doença como metáfora’, de susan sontag, que me fez relembrar uma das muitas histórias planejadas e abandonadas já há um tempo.

basicamente?

lista de leitura.

e nem falei que já quase cheguei a um terço de ‘the anatomy of melancholy’. preciso começar a pensar no que vou ler quando tiver terminado este em 2016.

a vida é assim…

escrever é algo antinatural, apesar de vários autores postularem que o ser humano tem um “instinto” para aquisição de linguagem. a própria fala só é possível graças a uma combinação dos aparelhos digestivo e respiratório, que, em conjunto, funcionam como nosso aparato vocal, o que já não é lá grande coisa.

passar o sábado tendo essa afirmação confirmada e reconfirmada cento e sessenta vezes não estava nos planos mas a vida é assim. o que, de fato, dá sentido ao presente momento e à tentativa de escrever sobre escrever de modo a, talvez, alcançar algum tipo de esclarecimento a respeito de como se dá o fenômeno e, mais importante ainda, entender por qual motivo se faz esse tipo de coisa.

ouvir pessoas dizendo que precisam estar inspiradas pra escrever é irritante.

por que?

bom, pra começar, porque escrever É um processo artificial, então, postulo, se o indivíduo estiver imbuído, tiver propósito e dominar relativamente bem uma técnica, conseguirá um desempenho razoável mesmo SEM inspiração.

inspiração é um conceito romântico pra caralho, diga-se, que isso fique claro.

na maior parte do tempo roubamos dos outros pensando que estamos sendo originais. o máximo que se pode pretender nesse campo de atuação é contar histórias batidas – ou escrever ensaios sobre escrever – de um viés fracionariamente diverso de qualquer atentado anterior. recombinar noções de outrem, repensar formatos, mas, acima de qualquer coisa, esquecermos da técnica tão duramente dominada e permitir que a história conte a si mesma.

pra isso… cacete, pra isso poder acontecer é impensável fazer o que quer que se queira de um jeito meia-boca. é indispensável estudar, ler, reler, APRENDER com os caras que vieram antes, ter humildade e evitar umidade.

ter humildade não significa bancar o trouxa.

no dicionário do Bierce é dito que humildade é um tipo de paciência necessário a quem quer se vingar (ou coisa de igual valor).

humildade é uma lâmina de dois gumes.

enfim, antes que comece a escrever uma história a respeito dos méritos da humildade, faz-se necessário que eu vá ler um tanto.

 

horrores cósmicos e coisas assim

aconteceu novamente seguindo o mesmo padrão: o mínimo de distração é bastante pra desencadear, melhor, causar uma ideia.

já tinha dito em outra entrada que venho acompanhando com curiosidade a nova antologia da hbo, TRUE DETECTIVE, e mencionei uma ou outra das diversas referências literárias (nem tanto, já que Lovecraft e Bierce, por exemplo, são considerados escritores menores apesar de o legado de terror de ambos permanecer firme e forte, moldando até tendências de mash-up de gêneros…).

um dos acidentes me ocorreu hoje, enquanto lia a introdução da coletânea nacional VISÕES DA NOITE: o fim de Bierce é misterioso, não tanto um fim, mais como um início de lenda. inevitável perguntar se, numa dream quest qualquer, poderíamos ou não esbarrar com o velho sentado sob a sombra de uma árvore que cresce sobre uma sepultura… talvez seu sonho de Carcosa tenha um espaço só pra si na sempre mutável paisagem dos sonhos e, por que não?, fosse possível acender um cigarro onírico enrolado com mãos de sonho e prosear por alguns momentos, o que o REM permitisse, a respeito de sua estadia no Brésil e sua suposta cobertura da rebelião gaúcha…

o outro acidente começa com várias informações que vão se sobrepondo:

– a leitura de THE RAVEN, reescrita de Lou Reed de vários textos de E. Alan Poe, ilustrada por, não outro, Lorenzo Mattotti;

– O TEATRO E SEU DUPLO, de Artaud;

– OS CANTOS DE MALDOROR, de Lautreamont;

– INFERNO, de Strindberg;

– e a lembrança surda de EUREKA!, o texto bastardo de Poe, sua pretensão de desvendar o cosmo dedicada a Humboldt, que deu em nada mas é um poema e um poema de Poe.

e pensei: se houvesse um universo que seguisse a física ou a lógica ou o que seja estabelecidas por Poe em sua cosmologia, quanta graça não seria possível fazer? que horrores cósmicos não seriam parte de sua fauna e flora? quantos cidadãos desesperados e à beira da loucura não circulariam pelas ruas em busca de uma ajuda que nunca chega, ignorados por transeuntes reptilianos, adoradores de polvos e lulas?

hm?

pois é.

mas ainda tá faltando foco.