Arquivo do mês: julho 2013

de vez em quando, quase nunca

Neil Gaiman trapaceia mais uma vez.

daria uma boa manchete, não?

rárárá

tudo começou numa noite escura e tempestuosa, no começo desta semana, quando li num site que, durante a turnê de divulgação de seu novo livro, ele teria soltado algumas informações a respeito da minissérie que está desenvolvendo e que servirá como prequel pra Sandman.

quem já conversou comigo sabe que gosto de algumas histórias que Gaiman escreveu mas tenho reservas com relação a um outro tanto de sua produção. enquanto gosto bastante de seus quadrinhos (com algumas exceções de que não gosto de jeito etc) e de sua prosa curta, a maior parte de seus poemas e romances nada me dizem. de vez em quando, quase nunca, encontro um de que gosto.

então, certo, Sandman não é minha prioridade aqui, mas o livro que o dito cujo divulgava, O OCEANO NO FIM DO CAMINHO. segundo Gaiman, escreveu o livro pra mulher atual enquanto estavam separados em trabalhos diferentes e, ainda segundo ele, a tal mulher não gosta de fantasia. então saltei pro que me pareceu óbvio: se você escreve (e dedica) um livro com determinado leitor, bem específico, em mente e sabe de antemão do que a pessoa gosta e desgosta, então o quê?

o livro já estava aqui em casa mas não era uma das minhas leituras prioritárias – sei que parece incoerente com o que disse anteriormente mas lembre-se do “de vez em quando, quase nunca”, as duas boas surpresas da prosa longa do cara, ANANSI BOYS e THE GRAVEYARD BOOK – mas pensar que leria uma novelinha do Gaiman que não fosse fantasia e com a sugestão de que teria elementos autobiográficos me fez passar algumas horas dos últimos dias na companhia do livro e, claro, nenhuma surpresa, a coisa toda está encharcada em fantasia.

tem um OCEANO dela no livro.

talvez até desgostasse menos do material se não me sentisse tão… lesado? enganado? ludibriado?

tem elementos interessantes, claro, e conforme as refeições iam se acumulando durante a narrativa, comecei a lembrar da importância que a comida tem na obra de Eça de Queirós e senti falta do bom e velho Realismo/Naturalismo.

ver o que consigo desencavar aqui em casa pra limpar o palato.

 

sim-outro-também

tava pensando em como os palavrões podem ser divertidos e o quanto tenho rido do texto cada vez mais esdrúxulo dito pelos elencos de trocentas séries da hbo e/ou outros canais.

minha preferida, que mais dá flashback das pornochanchadas  dos 70 exibidas pela tevê aberta dos 80, é true blood.

rárárá

vai falar de trash talk sem mencionar os doidos que escrevem esses diálogos cheios de porra, merda, caralho, filho-da-puta, puta-que-o-pariu e mais outro tanto de incorreção política, blasfêmias,  e ofensas gratuitas, e digo que isso nem chega perto das doideiras que li antes (nem vou mencionar o Bom Marquês, Knut Hansum, Henry Miller e o Chuck) nas boas e velhas histórias em quadrinhos.

com mais efeito, pois havia um contexto, e, melhor, havia uma trama que pedia esse tipo de coisa.

uma das hqs mais lembradas dos 90, PREACHER, tinha tanto palavrão que o Morrison, na época do lançamento de INVISIBLES, tirava o sarro dizendo que o sucesso do gibi era proporcional ao número de vezes que a palavra “fuck!” era usada por edição e, seguindo essa lógica comercial peculiar, mais engraçado ainda, que ele planejava adotá-la como palavra fetiche pra um dos protagonistas da sua própria série, Jack Frost.

como disse antes, rárárá, os 90 forram mais engraçados do que os 80.

toda e qualquer ideia ultrajante – que hoje em dia seria  considerada tão somente ofensiva – era levada às últimas consequências resultando em histórias divertidas mas as pessoas de então eram menos temerosas a respeito de quem seria ofendido por isso e aquilo e aquilo outro, esse monte enorme de estrume que escrevi… não dá pra deixar de rir do elenco de true blood desfiando todos aqueles impropérios sem qualquer convicção porque, episódio-sim-outro-também, a única intenção parece ser chocar e, depois de uma exposição prolongada a uma população cuja principal característica etária é usar o palavrão como A forma de comunicação ideal que assustaria os adultos etc, bom, resumindo, não funciona nem um pouco.

claro que ainda vale à pena dar uma olhada de quando em vez pra espiar as ruivas e brunnetes que dão as caras (mas não só isso) em episódio-sim-outro-também e, óbvio, pelo fator nostalgia que a versão dublada causa, “caralho”, apesar de eu estar “cagando e andando” pra essa “porra”, “filho-da-puta”.

os entre aspas fizeram parte de uma ou duas frases do diálogo inicial dum episódio que vi hoje.

não é o mangá de seus pais

ãhn, oi novamente.

um tempo sem ter o que dizer porque, sacumé, final de bimestre e coisa e tal.

mas

(hoje) andei lendo umas coisas… algumas boas outras nem tanto ou pelo menos nem tanto pra mim.

por exemplo

li o 1º vol da edição nova de DEATH NOTE que, acho, é o equivalente de duas edições da versão anterior, material que, a propósito de nada, eu já tinha lido e não tinha me agradado originalmente mas que quis revisitar porque, bom, convivi com uns meninos e meninas que gostaram da história e, numa de nossas conversas recentes, minha filha disse ser seu mangá preferido.

então, ótimo, li pra tentar entender que apelo teria prum adolescente/jovem-adulto/chame-como-quiser.

acho que dá pra resumir tudo numa palavra: facilidade.

a fantasia de poder escrever o nome de alguém (um desafeto, um criminoso etc) num caderno e automaticamente condenar o dito cujo a morte é tentadora e torna-se ainda mais por causa de toda facilidade do processo. você só precisa saber o nome correto da pessoa e conseguir ligá-lo ao rosto da mesma, de outra maneira a “magia” não funciona. mas prestenção: você só precisa escrever o nome e fim. se quiser alguma morte diferente de ataque cardíaco, deve descrever algo que seja possível e fim. você não precisa invadir o lugar onde a vítima se encontra, lutar com ela, sobrepujá-la e matá-la. só escrever o nome. sem sujeira, sem fedor. simples e objetivo.

o desenhista é bom mas subutilizado neste aqui, sinto dizer. a narrativa é tão cheia de texto que me via esquecendo tratar-se de um mangá e não de um romance de tantas em tantas páginas. é exposição demais e ação de menos.

o que é mais estranho: descobri recentemente THE PRIVATE EYE, gibi eletrônico de BKV e Marcos Martin que faz excelente uso da linguagem narrativa dos quadrinhos, e não pude evitar de pensar como é bizarro que os (norte, latino) americanos estejam se saindo melhor em contar uma história visualmente do que os japoneses… um retorno às origens pra linguagem, talvez, apesar de ainda termos um punhado de mangakás bacanas em atuação (como o sr. 20TH CENTURY BOYS, por exemplo).

uma hora dessas volto aqui pra falar como os palavrões podem ser divertidos.

não tão cedo, espero.