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Hamlet, atuação e outros subprodutos do bipedalismo

então, semana passada, enquanto grande parte do povo brésilien carnavalizava, ganhei uns minutos extras que me permitiram assistir a alguns filmes, ler (reler, nunca dá pra ter certeza) a peça do Shakespeare e o ensaio do Bloom e começar a pensar na importância que a atuação pode ter pruma hq ser bem-sucedida, algo que não tinha me ocorrido ainda mas que, pra minha sorte, já tinha sido pensado por Alex Toth.

todo mundo (sim, vocês dois são “todo mundo”) sabe à essa altura que Toth, pra mim, é a epítome do que um desenhista de quadrinhos pode ser. lendo as hqs desenhadas pelo Homem no início de sua carreira (sua produção começa antes disso, mas 1952-54 são os anos pivotais em que começa a tornar-se o Toth que conhecemos) têm-se uma boa noção do tipo de ilustração de que Ele era capaz então e Sua arte subsequente ganhou em profundidade, dinamismo e exploração do storytelling, a história em quadrinhos como narrativa sequencial, algo que era amplamente ignorado (raras exceções: Kurtzman, Eisner, Krigstein) em detrimento de peças pesadas de texto ilustrado, o que pode não ser necessariamente mau mas também não é necessariamente história em quadrinhos (wink!).

catzo! depois desse desvio quase inacabável do meu ponto de partida, sei lá se ainda quero escrever a respeito da importância da atuação nas hqs ou só dedicar mais umas linhas à como é essencial aceitar Alex Toth como seu único e suficiente salvador.

nevermind. também: não faço ideia se isso vai fazer sentido pra mais alguém além de mim mesmo e os outros envolvidos com a história que tou tentando contar.

pós-tergiversação, ainda apaixonado pela leitura recente de Hamlet e da dedicação religiosa de Bloom à peça (e suas ideias de como a peça poderia ser levada: Hamlet interpretado relaxadamente mas sob a direção de alguém cuja mão pesasse de modo a criar CONFLITO na própria execução do material, o que enriqueceria e redimensionaria a experiência da plateia), me peguei num daqueles momentos em que tentava traduzir tudo isso em palavras ao escalar, por mais arbitrário que pareça, um elenco de atores reais que teriam, em minha visão idealizada deles, as características das personagens dessa nova narrativa visual inacabada.

me vi pensando em como essas pessoas se movimentam, no arsenal de expressões faciais de que dispõem, quanto pesam e em como todas essas informações influenciam o modo como a história deve ser contada.

a seguir, passando pela Cripta do Terror e sua hostess, Jane Austen zumbi, vi um livro que passei a cobiçar quase automaticamente: Manual Mínimo do Ator.

no intro

Vou pular a introdução (reminiscências e digressões de sempre) e ir ao ponto.

 

Mais uma caixa em minha vida. Caixas são importantes, definidoras até pra entender um pouco da psicologia por trás da necessidade de contar histórias tanto em prosa pura quanto visualmente.

 

A caixa de quadrinhos do meu irmão mais velho em cima do guarda-roupa (foda-se o acordo ortográfico, aqui escrevo como quiser); a caixa de livros que a dona Leonora trouxe pra sala umas vezes…

 

Sim, eu minto. Disse que ia ser sem digressão/reminiscência, mas que porra, é a natureza da fera, não tem muito o que fazer.

 

A tal caixa veio duma loja que vende quadrinhos. Não interessa qual, só que chegou depois de duas semanas da encomenda. Merda.

 

A parte boa é que pude finalmente pôr as mãos numa meia dúzia de hqbs que tinham me deixado curioso, além das gringas que tavam em promoção, tipo, com 50% de desconto.

 

O CONTÍNUO #7, NECRONAUTA #5, NANQUIM DESCARTÁVEL#2, TEQUILA SHOTS, GRAFFITI 76% #17 & 18. Tá faltando ler a primeira e as duas últimas da mesma lista, mas cara, quem diz que hqb não é boa é por pura falta de informação.

 

O Beyruth tinha adotado um formato pras quatro primeiras edições das aventuras do seu personagem que casa perfeitamente com minha idéia do que seria o formato ideal pra hqb. 8 páginas de história, mais capa e contracapa. Desenhos formidáveis, um conceito matador. Numa casca de noz (dá pra resistir a esses ditos dos gringos? Podem não fazer sentido em português, maaas): o Necronauta é o salva-vidas dos mortos. Rá! A novidade do #5 é que o sujeito dobrou o número de páginas de história, aumentou de meio ofício pra formato americano, e continua chutando bundas (mais um… tentei, mas… veja acima) no quesito arte, mais ainda porque conseguiu dar um acabamento profissional pro material. Plus: Nikola, o bom e velho Nikola, foi integrado à mitologia do personagem!

 

As outras duas são cool. O público alvo é que pode ser meio que restrito. HQs sobre jovens urbanos que ou fazem ou fizeram ou lêem quadrinhos. A segunda ND do Esteves & Cia (tem uns 4 ou 5 desenhistas no projeto) me agradou mais que a primeira. Um componente de humanidade tá surgindo, temas mais universais com que pessoas de diferentes classes, idades, o diabo, podem se identificar.

 

E, aproveitando que vim aqui hoje, tenho uma pergunta pra quem quer que leia essa joça: vocês gostam de histórias de fantasmas?

 

Tou perguntando porque tem uma frase do Hamlet (cena 5, logo depois que o fantasma do rei vai embora) que teve um efeito terrível sobre mim: me fez pensar. Quando penso junto idéias deslocadas, soltas, e produzo uma síntese, uma idéia nova (ou que penso ser nova, desconheço se mais alguém a teve) que daria uma hq de, hm, 5 páginas. Mas eu tou de dieta de escrever coisas assim, soltas, sem propósito, daí a pergunta. Ou escrevo em prosa? Sei lá.