Arquivo do mês: junho 2008

mais do mesmo

 

Sabe, o grande lance de pensar no que escrever a seguir é que, mais cedo ou mais tarde, pode levar uma semana (como o caso atual) ou mais tempo ainda, não deixo de pensar, a idéia não morre e, inevitável, escrevo.

 

Daniel, que me persegue (ou a quem persigo) por toda vida, me perturba mais uma vez de meu torpor vitalício.

 

Tudo começou por causa do questionamento a respeito do roteiro… sobre o qual já escrevi um tanto em outra ocasião. Daniel não se acredita capaz de trabalhar a partir de um roteiro detalhado escrito por outrem. Daniel prefere escolher os textos que lhe agradam e adaptá-los ele mesmo. O que me deixa irritado não é saber que, por conta disso, o mais provável é que não trabalharemos juntos (praticamente já desisti de escrever quadrinhos a essa altura), mas pensar (!) a respeito do que seria sua dificuldade. Se Daniel consegue pegar um texto literário (digamos, com narrativa em off, diálogos, descrições, digressões, enfim all the shebang) e contá-lo visualmente, qual o problema de pegar um roteiro (que pode ter exatamente os mesmos elementos que o texto literário, só que já distribuídos, organizados, o que seja) e interpretá-lo a seu bel prazer? Torná-lo seu?

 

Cáspite!

 

Isso me faz lembrar do bom e velho Bernie (Krigstein), conhecido por seu trabalho na EC nos idos de 50 (MASTER RACE pipoca na memória), que brigava com seu editor pela possibilidade de quebrar um roteiro em mais páginas… da ignorância do dito cujo quanto às alternativas de se narrar uma história visualmente e do verdadeiro sacrilégio de negar a Bernie liberdade total e irrestrita na composição de suas páginas… o que ele deixou que fosse feito, um trabalho de miniaturista, foi quebrar a história em mais painéis, sem alteração do número de páginas.

 

Talvez o mundo dos quadrinhos não estivesse pronto pruma narrativa cinematográfica (apesar de Eisner ter provado o contrário com o SPIRIT na mesma época) e preferisse suas histórias verbal e visualmente redundantes…

 

Show, don’t tell!

 

De qualquer jeito, escrevi alguma coisa, apesar de não lembrar mais qual a intenção original.

 

Ah, é! Siga o exemplo de Bernie! Capte, adapte, torne-o seu! HQ pode ser autoral mesmo quando feita em colaboração… mesmo os melhores roteiristas do mundo seriam NADA sem um intérprete que lhes emprestasse brilho.

 

Bernie é lembrado até hoje, mas… quem escreveu aquele roteiro, mesmo?

processo

 

Quase todo dia penso no que vou escrever a seguir.

 

Por pensar quero dizer interagir com pessoas e objetos que trazem as idéias de pessoas que realmente não estão no mesmo espaço-tempo que eu.

 

A última tira DESVIO publicada há umas horas nasceu de uma conversa com minha mulher/parceira/amiga. Especulávamos sobre de onde se originam as idéias que mudaram o mundo.

 

Conceitos de seriados televisivos, evolucionismo, filosofia e psicologia entraram na roda.

 

Este cara e este outro meio que teorizaram a respeito da bagaça.

 

Assim como Rupert Shelldrake (que, entre outras coisas, deu a Morrison a idéia de campos morfogenéticos dos quais o Animal Man tiraria seus ‘poderes’) escreveu A SENSAÇÃO DE ESTAR SENDO OBSERVADO e postulou que a mente pode até estar ancorada à ‘realidade’ através do cérebro, mas ainda assim, ainda assim, é capaz de alcançar outras esferas utilizando um conjunto de ‘ferramentas’ que, bom, nada tem a ver com o ‘hardware’.

 

Não sei se foi ele quem cunhou o termo, mas Alan Moore é a primeira pessoa que lembro mencionar o IDEASPACE.

 

Trocas, permutas e outros sinônimos que vocês quiserem usar.

Inalterado por mãos humanas

 

Aposto que já aconteceu com quase todo mundo ser atraído por um título, se não por uma capa, de livro. Comigo é o tempo todo.

 

Foi numa ocasião assim que dei de cara com o livrinho de contos de Robert Sheckley que dá nome à entrada de hoje.

 

Como se sabe, em nossas praias não há tradição de publicação de fc (embora outras fantasias sejam despejadas no mercado em volume e periodicidade assombrosos) e, sempre que tenho oportunidade, procuro as minhas ‘doses’ em sebos ou compro material importado, mesmo.

 

O que é legal sobre fc é que, apesar das toneladas de besteiras que os caras TINHAM que escrever já que eram pagos por palavra (nos pulps era assim), tem bastante material que soa profético com a perspectiva que tempo e história acrescentam…

 

O Bob mesmo escreveu em 58 uma história sobre um reality show. A tevê ainda, basicamente, em sua infância.

 

Fabuloso, também, que ainda hoje encontremos as influências desses caras em outras ficções que consumimos. Pegue o conceito usado em PLANETARY, por exemplo, de uma nave em que cada tripulante era também um componente orgânico do ‘mecanismo’ que a fazia singrar o espaço. Coisa do Sheckley.

 

Alfred Bester, na minha opinião, é um dos melhores autores de fc de todos os tempos. Muitos caras que se arriscam nessas praias em nossa época começaram a escrever graças a livros como O HOMEM DEMOLIDO e STARS MY DESTINATION.

 

Agora, um pouco de shuteye, que ninguém é de ferro.  Exceto quando é.

do roteiro

estive conversando com um camarada em pvt sobre a estranha aversão que alguns desenhistas têm ao roteiro detalhado (ou full-script). e não são só os brasileiros. Bill Seinkiewicz usou o excesso de detalhes nas descrições de Moore pra BIG NUMBERS como desculpa pra abandonar a série.

de qualquer jeito, meus vários centavos sobre o assunto são os seguintes:
 
-o desenhista é livre pra ler e interpretar dado roteiro de modo a beneficiar as características mais marcantes de seu estilo;
 
-um roteiro não é uma camisa de força do mesmo modo que um mapa não é o território que ele representa, dig? apesar de haver, sim, indicadores de pra onde ir com o visual num full-script, o desenhista é a pessoa mais habilitada a contar a história visualmente…, gosto de pensar no indivíduo que desenha um roteiro por mim escrito como colaborador na narrativa, não robô-desenhista;
 
-uso full-script mais por força do hábito do que por necessidade. gosto de ‘desenhar’ a história verbalmente, mas é mais em meu benefício do que no do desenhista. minha memória é uma porcaria e escrever é uma boa forma de derramar a mente por aí, pro caso de se fazer necessário um back-up;
 
-quando trabalho com velhos parceiros, como Jean Okada, Léo Andrade, Marcos Roberto e que tais fico muito mais à vontade pra fazer descrições no osso do que quando não sei quem vai ser o desenhista da coisa.
 
acho que cobri todas as bases.
 
se o Bill fosse esperto teria feito como Eddie (Campbell). qualquer pessoa sã teria agido como ele, a propósito. por acaso um dos meus hobbies é colecionar roteiros de caras que considero bons. há um tempo me caiu nas mãos um livro, acho que da Spider Baby, colecionando os roteiros dos quatro ou cinco primeiros capítulos de FROM HELL.

Moore usa cerca de 4 laudas pra descrever UM painel. i shit you not.

Eddie, velho de guerra, pediu que a mulher e os desenhistas que trabalham em seu estúdio fazendo arte adicional lêssem a bagaça toda e passassem pra ele só as direções realmente importantes.

o mapa não é a porra do território!

várias versões

 

Daniel esteve na cova dos leões e interpretou sonhos pra seus captores.

 

Me acompanhou na escola bíblica dominical e depois num ‘curso’ de desenho. Quisemos, ao mesmo tempo, entrar pra versão batista de um seminário. Ele não tinha dúvidas, já eu…

 

Daniel voltou numa sessão de ouija e o confundiram comigo.

 

Depois tornou-se personagem numa série em quadrinhos bem sucedida.

 

Nosso último encontro foi no http://www.4mundo.com/forum … ele continua me assombrando. Agora que estou velho e alquebrado e mal consigo empunhar a caneta, vejo que ele continuou evoluindo e tem postado páginas competentes e harmoniosas no http://www.ds.art.br . Um dia vou ser como Daniel e escrever aqui com mais freqüência.

invisible

 

Convergência temática pouca é bobagem!

 

Percy Shelley e seu Ozimandias querem mandar um recado qualquer – e todas as implicações subjacentes – através do espaço-tempo.

 

Primeiro numa das missões de Jane Charlotte numa clínica de criostase em MACACOS MALVADOS; a seguir como personagem coadjuvante na segunda storyline de INVISÍVEIS e, por fim, na epígrafe de COLAPSO, de J.Diamond.

 

Apanhei minha cópia de seu livro de ensaios UMA DEFESA DA POESIA et al e fui procurar a edição de sua biografia, de André Maurois, traduzida pelo Bandeira. No processo terminei encontrando outra bio, de De Sade, que saiu colada na de Shelley.

 

Os dois em ARCADIA, interagindo direta ou indiretamente com K.M. e sua célula terrorista (?), ambos epítomes, cada qual a seu modo, do proto-libertarismo.

 

Associo a coisa toda com aquelas idéias de física e neurologia, princípio da incerteza e alucinação controlada… em INVISÍVEIS tudo é um jogo, a realidade é questionada a cada página e, justo agora, quando sozinho já consigo pensar e questionar –

 

Bom, vem essa sincronicidade. Coincidência mais significado.

 

Au revoir.

 

I’ll leave now, to become the invisible man.

fatos

 

O fato de só perceber agora que meu discurso foi colonizado por termos de psicanálise, apesar de minha ignorância quanto a sua origem, fez soar um alarme baixo e continuo.

 

Os principais, que menciono sempre sem objetivos ocultos, são ‘livre associação de idéias’ e ‘insight’, principalmente quando me refiro ao processo criativo.

 

Depois de quase duas décadas de obscurantismo, de achar que a composição de histórias acontece num plano puramente mental, psicológico, começo a vislumbrar alternativas de criação, digamos, mais viscerais.

 

O corpo como parte do processo, algo que também ajuda a moldar a persona literária, aquela responsável pela voz do texto… só delírio ou finalmente enxergo pra além do mentalês puro e simples, começo a ver a organicidade, as idas e vindas da criação?…

 

Não mais quicar idéias e ‘pensar, pensar, pensar’.

 

Viver.

 

Acumular experiências. Falar delas também. Da beleza, da feiúra, do caos e ordem e conseqüências de tentar controlar um universo, uma realidade acausal.

 

Loucura, pura loucura.

 

A realidade está além do alcance de nossas mãos, de nossas mentes.