Abre lindamente com capa de Ebbios, muito orientada pela composição design&cores e uma pegada vintage/psicodélica, se é que faço sentido. Escrevo as 7h35 da manhã de sábado num ambiente hostil. Cardápio com outra foto de Laura Gattaz sobre um dos meus temas favoritos ilustra o serviço.
As hqs da edição formam um grande grupo temático cujo mote, síntese, o que seja, é algo como relacionamento e maturidade.
‘Inferno de boas intenções’, de Sergio Chaves e Allan Ledo, é muito boa. O desenhista só fez arte comparavel antes (dentro da CE, claro) no #2, visualizando uma narrativa de Eder Saragiotto. Aqui o contraste e a tridimensionalidade plástica dos cenários e personagens engrossa o caldo do roteiro de Chaves, que tá matando a pau, enquanto seu narrador vive a história. Aliás, a identificação com ele rola sem grandes dificuldades. Amigos reúnem-se sem as respectivas namoradas na expectativa de reviver aventuras sexuais e etílicas que causam nostalgia. Em 9 páginas ganhamos uma personagem bem definida sem esforço: duas ou três frases e o tom de seus diálogos bastam; Sérgio usa silêncio com eficácia, principalmente na última página. Único downside é uma súbita epidemia de ‘aí’ entre as páginas 3 e 4. Me desconcentrou e tive que reler tudo.
Entrevista com a banda do circuito alternativo
Venus Volts (aliteração! adoro aliteração!) que li inteira. As fotos da vocalista ajudaram, evidente. Vou fuçar a rede atrás de mais. Por Aloísio de Moraes (sem parentesco).
Jozz participa com uma hq sinestésica, ‘Sabotagem’. Visual evocando olfato enquanto o verbal evoca a aparência dos cheiros. Mais umas páginas (5 no total) e outra brincadeira, dessa feita com o verbal falado. O narrador ‘ouve’ e o leitor lê a fala da personagem, óbvio, e a escolha de como mostrar que o primeiro não presta atenção ao que lhe é dito tem brilho próprio.
‘Mas será o Benedito’, por Lídia Basoli, traz memória afetiva da escritora sobre o Clude de Cinema de Marília, cidade onde vive. Outra experiência de fácil identificação, por envolver descobertas e até a figura de um mentor… quase arquetípica, mas não tão bem executada quanto aquele conto da CE #1.
A bola da vez em ‘Além do cinema’ é Tarantino, que tem sua história cinematográfica relatada por Bruno Ondei. Coisa pra quem não ouviu falar do cara, o que é bem mais gente do que se esperaria, ainda mais no nosso país inculto… e olha que o Tarantino é pop! Me fez lembrar dum ensaio meio bêbado do David Foster Wallace sobre a filmagem de ‘Estrada Perdida’, do Lynch, em que já dizia que as pessoas não captavam a dívida do Quentin ao seu cinema… Ondei não é DFW, cujo texto tem mais de 20 páginas… o que me divertiu foi perceber que Tarantino, como Lynch antes dele, já se tornou parte da história recente do cinema, adjetivo e referência.
Em ‘Joaquina pede água’, Sérgio Chaves compete consigo mesmo, mas é uma competição injusta, já que seu roteiro adapta um conto de Jana Lauxen, acompanhado, dessa vez, pela arte de Sueli Mendes. Competentes, a narrativa visual alcançada é quase cinematográfica. A quinta página sofre com excesso de texto, que talvez pudesse ser enxugado. A história é curiosa: o narrador, por uma dessas circunstâncias fortuitas, termina presenciando um suicídio, melhor, uma despedida. Título tem mais de um sentido.
‘Arte revelada’ traz ‘Olhar cansado’, por Luc de Sampaio, ensaio fotográfico que ganha maior dimensão graças ao texto breve e preciso do fotógrafo. Plus: deu pra matar saudade de Curitiba. Não vou lá desde 99.
‘Os ratos, os gatos e os homens’, prosa pura por Jana Lauxen, é quase rodrigueano na descrição dos moradores patéticos de um hotel de 5ª. Norberto odeia o gato da vizinha; a vizinha odeia tudo, inclusive a si mesma e os homens que a desejam; os donos do hotel odeiam os ratos que infestam o lugar. Apesar de bem construído tem uma falha quase crucial na estrutura que permite ao leitor deduzir o final, que deveria ser surpresa. Humor negro pra dar e vender e a ironia generalizada das ações das personagens tresloucadas impedem que perca impacto.
‘Sambinha de ave de arribação’, hq do Laudo, é outra memória afetiva. Desenho mais estilizado que nunca e firmeza na voz narrativa garantem, sustentam a atenção. O narrador de meia idade, consciente dos truques que a memória prega, reencontra ex-amante e, graças à visão de vida mais vivida e realista (mas não mal humorada ou sem entusiasmo) ganha o leitor.