Xeu dizer isso logo de cara: puta-que-o-pariu!
Há muitas luas uma HQ do mainstream norte-americano não me impressionava. E não tou dizendo que os caras reinventaram o vocabulário, a gramática ou a sintaxe da linguagem, coisa que muitos autores afirmam ter realizado e só uns poucos fizeram de fato.
Usando um storytelling tradicional, sem firulas, só os recursos narrativos de sempre, o roteirista Brett Lewis e o ilustrador John Paul Leon contaram uma daquelas histórias que não dá pra parar de ler.
A premissa é bacana e a princípio até pensei que os caras tavam reciclando personagens da DC que ficaram conhecidos nos anos 80, os sovietes supremos, soldados russos em armaduras brancas e vermelhas que serviam a URSS antes de seu desmantelamento pós-glasnost, pós-perestroika. Enfim, aquele instinto leve de fanboy que assombra até mesmo o mais empedernido crítico fez bater a curiosidade.
O plus era a arte do John Paul. Curiosidade dobrada.
Daí uns caras que entendem do riscado começaram a falar bem da história, o que fez o dial da curiosidade girar mais uns pontos. Quando começaram a chegar as notícias de que a série agora seria uma mini-série de 8 números o sinal de perigo começou a tocar. Quando divulgaram que iam abreviar a parada pra 7, pensei com meus botões ‘nunca vão publicar esse troço em tpb’. Quando o 6º número demorou meses pra se materializar e depois foi substituído por um irônico ‘winter special’ final, minha certeza era quase absoluta.
Por algum motivo tudo mudou, publicaram o tpb e passei o domingo me deliciando com ele.
Então, após o desmanche da União Soviética, a ‘ameaça comunista’ com que assombravam todo mundo desde o fim da 2ª guerra, várias unidades das forças especiais russas tornaram-se, como se diz no vocabulário dos administradores de empresa, redundantes e esses caras altamente treinados ficaram sem emprego. Alguns foram absorvidos pela polícia, outros tornaram-se soldados de aluguel, guarda-costas e até mafiosos.
Os caras dessa unidade específica, a RED-11, protagonistas da história, eram pilotos de ‘tanques foguetes’, como eles mesmos definem suas armaduras, os spetsnaz que pilotavam essa tecnologia maluca e pertenciam ao programa winter men, que visava a criação de super-humanos. Eles faziam parte da divisão de armaduras, que era um recurso pra deixar em xeque a divisão que tinha criado super-humanos verdadeiros.
Doideira, né?
Mas esse é o mundo paranóico em que os caras cresceram, um pouco mais fantasioso que nossa realidade, pero no mucho.
A história começa com o seqüestro de uma criança. Kris Kalenov, o policial que vemos pela primeira vez caído na neve e dado como morto pelos guardas do parque, e ex-membro da RED-11, spetsnaz, é quase imediatamente envolvido na investigação, o que implica uma viagem aos EUA onde ele se infiltra na mafiya local a fim de rastrear a tal criança, o mcguffin que põe a trama em movimento.
Drost, o soldado, aparece e já toma parte ainda no comecinho. Depois é a vez de Nikki, o gangster, Nina a guarda-costas e, só no último episódio, o Siberian, a que Kalenov se refere quase como uma criatura de outro mundo (que ele é, de fato).
Sou super-curioso com relação ao estado da Rússia pós-abertura, capitalista, e uma das coisas que Lewis fez muito bem foi a pesquisa. A corrupção está em todos níveis (nenhuma novidade aqui, vivendo no país em que vivemos todo mundo sabe disso), mas a coisa é disseminada de um jeito maluco. Todo mundo é corrupto. Não tem um só Quixote, inclusive os protagonistas, que, se não fazem vista grossa pro ilícito, participam ativamente dele.
É uma história sem heróis, mas com um super.
O bacana é que mesmo os caras tendo debandado a unidade e cada um assumido uma posição que poderia até mesmo ser considerada antagônica aos outros eles ainda são fiéis aos companheiros de unidade. A interação entre eles é um barato.
São amigos.
Lewis também fez um troço cool com a língua inglesa aqui. Ele adotou várias expressões da língua russa características, assim como adaptou o modo como formulam a frase. Tá, é tudo em inglês, compreensível, mas é aquele inglês que a gente sente meio truncado, que não é a língua materna do falante. Do John acho que nem preciso falar muito, já que o trampo dele é bem disseminado no mainstream, tendo desenhado franquias gigantes como Batman, X-men e correlatos.
e, claro, como é praxis agora, 5º segmento de ‘ao inferno’ upado.

