princípio de desculpa

por menos que eu queira, assisto pelo menos alguns minutos fragmentados de INCEPTION uma ou duas vezes por semana. sim, uma das contingências de viver uma vida social pouco agitada.

sempre há espaço pra piorar ou, como dizem por aí, “podia ser pior”.

depois de assistir ao filme originalmente, um dos livros que procurei pra ler foi  A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS, do Sig Freud. não li tudo. um punhado de páginas e a vida precisou seguir em frente etc etc etc.

a ficção geralmente me arrasta pra lugares assim, dos quais só quero escapar.

óbvio que alguns livros existem há tanto tempo e influenciaram tantas pessoas que podem ser considerados territórios, às vezes, continentes. “o mapa não é…” lembra disso? pense outra vez.

então, essa semana, catei FINDER LIBRARY Vol.2 pra ler. a 1ª história da compilação é DREAM SEQUENCE, que não vou tentar explicar porque isso aqui não é resenha, crítica, etc, mas um exemplo de processo de pensamento, de como a atenção pula de uma coisa à outra sem se prender por muito tempo e o que torna a escrita do que quer que seja – à essa altura – mais difícil do que há uns anos.

pelo título dá pra imaginar que a história trata de sonhos, certo? sonhos sempre foram um dos meus maiores interesses, mesmo depois de descobrir sua causa biológica, sua função e até a química envolvida na produção dos cenários oníricos. sempre vão haver dúvidas suficientes pros sonhos continuarem sendo considerados um mistério e a possibilidade do mistério abre pra possiblidades poéticas e isso me interessa.

então, no meio da leitura de DS, fui pegar minha cópia de SOBRE A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS ou ONIROCRÍTICA, do camarada Artemidoro, e lendo a introdução deste, me foi sugerido que o livro, além de fornecer informações sobre os significados dos sonhos, podia também ajudar a reconstituir a época em que foi produzido, os costumes, etc. como bônus, descobri que o grego foi contemporâneo do imperador romano e estóico amador, Marco Aurélio, e baixei minha cópia de AS MEDITAÇÕES pra dar uma olhada.

na dedicatória de AS MEDITAÇÕES, há um trecho exclusivo para Máximo, o que completa o círculo, pois traz tudo de volta a outra arte, o cinema, que foi o princípio de desculpa que usei pra escrever isso aqui, certo? em GLADIADOR Maximus é o protagonista vivido por Russel Crowe e Marco Aurélio é o imperador romano que morre logo no começo da história.

não é um círculo perfeito mas começa e termina mais ou menos no mesmo lugar e hoje, pra mim, vai ter que servir.

fezes

“qualquer um que entenda a escrita como um passeio agradável na direção dum estilo de vida de classe média jamais escreverá qualquer coisa que preste.” Charles Staniland em HE DIED WHITH HIS EYES OPEN.

então, foi mais ou menos isso que aconteceu recentemente: …

escrever tornou-se atividade desafiadora e o grau de dificuldade só faz aumentar. juntar duas frases por mais imbecis que sejam parece um trabalho de Hércules (talvez a limpeza daquele estábulo).

pensando em estrutura, criatividade, conflitos, personagens e despejo.

lembre do último item da lista.

stand

por mais que tenha necessidade de acelerar alguns processos iniciados em priscas eras (não faça isso em casa, sem supervisão, por favor. adjetivo antes de substantivo é simplesmente… repulsivo, porém é um clichê atraente demais pra deixar passar batido) a preguiça tem levado a melhor sobre mim. não que seja preguiça derivada de inatividade, isso, aliás, é artigo raro atualmente. assuntos demais a resolver no mundo secular, daqueles que demandam esforço físico e fosfato em proporções que não estou habituado a despender quotidianamente mas que, inevitável, se quiser ver no escaninho de saída devem receber exatamente o que pedem.

enfim, nenhuma novidade.

deixar material em stand-by, quer dizer.

dizem os gringos que isso é bom.

vou tentar aproveitar o fim de semana prolongado e todo o tempo livre que me sobrar neste pra fazer o que de fato preciso fazer e me ver desobrigado de pelo menos uma etapa dos processos supra a fim de poder dedicar atenção minuciosa a detalhes da mecânica ou carpintaria (ou outra metáfora de trabalho manual qualquer) que a história que pretendo contar com meus camaradas desenhistas necessita.

a parte interessante de ter tudo planejado com tanta antecedência é que no fazer se afinam detalhes, enriquecem-se tramas e somos surpreendidos por personagens, suas atitudes e desvios das ideias originais que só tornam tudo mais estimulante.

pra isso serve a técnica: abrir espaço pra criatividade acontecer.

uma vez estabelecido o molde em que se deseja trabalhar, subvertê-lo é só uma questão de fazer um jam de informações, referências e quejandos, tanto verbal quanto visual e ver no que resulta.

sem técnica só se vai de um lado a outro arrancando cabelos e entupindo ralos e rezando pra que, no fim do dia, tenha-se algo minimamente legível.

texto crítico sobre BATMAN, DEATH BY DESIGN, o livro novo do Chip Kidd com arte de Dave Taylor me mostrou que não sou o único preocupado com as contradições inerentes entre arte, mídia, expressão pessoal, produto, comércio e outras nomenclaturas que me escapam no momento.

ajudante

a palavra “enfezado” é derivada de fezes mas a maioria parece ignorá-lo. o humor de alguém com intestino preso certamente não é dos melhores, estresse sendo um daqueles fatores determinantes que, na hora H, contraem o esfíncter a ponto de nem ar escapar pelo dito cujo. é o estado em que vivo atualmente. não enfezado, mas estressado. o processo de atingir a meia-idade é um tantinho mais avassalador do que eu esperava. como não sou cool como alguns escritores que admiro ou mobilizo seus recursos intelectuais e financeiros, crise é crise e a estou vivendo sem adotar a magia como solução para ela, comprar um porsche ou arrumar uma amante com metade de minha idade.

o que significa vivê-la diariamente, com tudo de bom e estranho que dela deriva.

não é muito.

pode acreditar.

os níveis energéticos aqui em casa estiveram numa baixa tão terrível que tivemos um curto-circuito e ficamos sem luz de 5ª para 6ª da semana passada, o que me fez interromper a produção do único trabalho que venho desenvolvendo desde o final do ano passado.

na última terça, afinal, depois de trabalhar três dias (5ª, 6ª e terça) como ajudante de eletricista e de pedreiro na tentativa de resolver o problema do lar, chegamos a uma solução permanente.

posso voltar a escrever.

a demanda física me esgotou (que novidade!).

Rodrigo Nemo, que desenha DOIS LOBOS, já quase terminou sua parte e ando à procura (preguiçosamente) de alguém que possa letreirar, ajudar com diagramação e outros serviços para os quais me faltam habilidade. se você, que lê este blog, tem algum desses talentos indispensáveis para quem faz quadrinhos com intenção de publicá-los, sentir-se compelido por um desejo cristão a ajudar, basta deixar um comentário com um endereço em que possa encontrá-lo que entrarei em contato. se precisar de ajudante de eletricista e encanador e viver nas imediações do bairro, conte comigo.

o roteiro de MdC, como sugerido, entrou em sua reta final em algum momento desta semana (sim, minha memória cronológica continua irremediavelmente fodida, obrigado) e a qualquer momento devo ficar agitado como uma fuinha cocainômana a tomar providências para cima e para baixo a fim de fazer mais uma tentativa desesperada de conseguir recursos que tornem o material publicável (não graças a mim, mas aos desenhistas que, espero, trabalharão remuneradamente nas benditas 72 páginas projetadas) dentro dos prazos estabelecidos etc, etc e etc.

obrigado por sua atenção. sinto não ter frequentado essas paragens tão assiduamente quanto antes e espero não ser abduzido por forças maiores tão cedo a ponto de ausentar-me por outro período longo.

fim de era

acho que foi na bienal do livro de 2000 ou 2002.
usemos a segunda data, já que dá um número mais redondo e não é muito distante da verdade (apesar de eu não ter certeza de que porra é essa). dois anos só vão fazer diferença pra quem ainda tem vinte ou menos.
o estande da Taschen tinha aqueles livros pesados e bonitos e essas cadernetas leves e bonitas. o volume de páginas, o papel reciclado poroso, todas as sensações táteis que as acompanhavam foram decisivas naqueles momentos insones e fortuitos. compramos um punhado delas e desde então, quando me referi a manuscrever qualquer coisa, me referia a manuscrever nelas.
boa parte das histórias escritas nesse período foram primeiro ensaiadas (às vezes ocupando páginas e mais páginas) numa das três. salvo poucas exceções (não consigo lembrar de quais… algumas tiras ou onepagers que fiz inconsequente, puro instinto, compulsivamente usando o material que estava à mão no momento). carreguei-as pra cima e pra baixo em várias mochilas até que um dia de chuva molhou a última delas. era chuva demais e, a mochila, impermeável de menos. enrolei o quanto pude pra voltar a escrever nela. a água enrugou o papel e aquilo me deixou desgostoso. devia ter tomado mais cuidado.
mais de uma vez um guri ou guria, daqueles curiosos ou só chatos, me via trabalhando em uma delas no trampo secular e perguntava se eu estava escrevendo um livro. no mais das vezes só pude desconversar, mas sempre desejei ser capaz de dizer que sim. o máximo a que cheguei foi um ‘gostaria, mas não é bem assim que funciona’. é, nostalgia das cadernetas de anotações, quem diria, mas em toda bienal que vou, visito o estande da Taschen e pergunto se eles as têm e a resposta, invariável, é que não as fabricam mais.
andei fotografando algumas delas, as mais recentes.
provável que faça upload das fotos no tumblr. tou postando tanta coisa estranha naquela joça que isso vai ser o de menos.

Dois Lobos: pág. 01

Abaixo, a primeira (de 24) página do roteiro. No link, o produto do trampo de Rodrigo Nemo.

Página 1;

Nada inovadora. Nestes 6 painéis fazemos uso do pdv (ponto de vista)de Andrade, um dos protagonistas.

Painel 1;
O que vemos é uma casa em um bairro suburbano com muro alto e portões de ferro batido. Através do portão da garagem podemos ver um carro guardado. Não há ninguém na rua apesar de o dia estar começando a clarear. Ao responsável pelas letras: considere o uso de fontes diferentes para os monólogos internos dos personagens que se alternarão na narrativa. Os monólogos aparecerão como recordatórios, os retângulos usados para texto quando os personagens não estão dialogando, feito?

RECORDATÓRIO: Lembro de ter entrado na cela.

Painel 2;
Ainda usando o pdv de Andrade, vemos sua mão direita empurrando o portão de ferro menor e temos uma visão parcial da fachada da casa. Pense numa estrutura sóbria para combinar com a personalidade lógica do sujeito.

RECORDATÓRIO: Ouvi a porta bater e o ruído metálico da tranca se fechando.

Painel 3;
Dentro da casa. Organizada, muito organizada. Exceto por um ou outro item ou peça de mobiliário derrubado ou posto fora do lugar por uma pessoa (ou coisa, tenhamos esperança) que saiu às pressas.

RECORDATÓRIO: Depois disso silêncio, vazio, escuridão…

Painel 4;
Chegamos num corredor terminado em uma escada que leva ao porão.

SEM TEXTO

Painel 5;
Ainda estamos no topo da escada, ainda usamos o pdv de Andrade, de cima para baixo. A porta da cela que se encontra ao pé da escada está aberta.

RECORDATÓRIO: …a espera… a contagem regressiva para o ataque que não veio.

Painel 6;
Dentro da cela, depois de passarmos pela porta aberta, vemos as paredes de tijolo nu, arranhadas em alguns pontos, em outros escavada até o concreto armado que forma a segunda camada da parede. Pedaços de roupas rasgadas no chão.

RECORDATÓRIO: Ao menos não quando imaginei.

RECORDATÓRIO: Esta é a chave:

ídolos

gozado como de tempos em tempos, geralmente conversando com a mesma amiga, reitero minha opção de não ter mais heróis pessoais, paradigmas, ídolos.

todo mundo tem pés de barro.

apesar disso, fica difícil ignorar a postura e integridade de alguns caras que mantêm a palavra mesmo em face da grita massificada de que, ‘ei, cê tá errado!’.

preciso dar nome aos bois?

acho que a essa altura (e pra quem não entender, basta rolar a esteira um pouco pra baixo) seria redundar e redundância é algo que, quando possível, prefiro evitar.

parece que a maioria ignora (ou faz questão de ignorar) a diferença entre uma pessoa física e uma jurídica, que não sabe o que uma corporação pode fazer com uma voz individual.

claro que sair da zona de conforto é complicado, claro que muita gente gosta de personagens e não de autores, como se fosse possível dissociar a qualidade apresentada pelos primeiros nas mãos de um dos segundos que realmente soubesse o que estava fazendo, claro que tem uma pitada generosa de preconceito em minha visão, claro que a maioria está interessada tão somente em sua dose diária, semanal ou mensal de entretenimento com aquele personagem específico, pouco importando se o que está lendo faz sentido ou não, desde que tenha umas falas bacanas e ilustrações legais.

arte? que é isso?

antigamente arte tinha uma função.

pode ter certeza de que não era distrair zezinhos do mundo todo das agruras de suas vidas.

arte costumava ser algo transcendental, possibilitar um mínimo de iluminação, uma epifaniazinha de quando em vez.

hoje em dia arte e entretenimento confundem-se na cabeça da maioria.

antes que eu esqueça (novamente), reativei minha conta no tumblr e andei fazendo uma porrada de reblogs em preparação prum teaser de algo que está quase pronto.