raciocínio #2

mais um teco das ruminações de Tim Callahan. por quê? pense num motivo todinho seu. a tradução pode fazer pouco sentido, então leia, cê sabe, com uma pitada de sal e/ou o original no CBR.

Raciocínio # 2: A arte é importante, certo?

Kirby brinca com o ponto de vista por causa da dependência da Terceira Pessoa Limitada (talvez com uma pitada de Onisciência Limitada em meia dúzia de recordatórios narrativos espalhados por uma história) e porque este (ponto de vista, dummie!) ancora-se quase inteiramente no artista. Claro, o escritor pode, no seu script, incluir detalhes ‘de diretor’ como descrições de fundo, ângulos de câmera, os pontos de ênfase, o humor geral do painel, etc, mas na tradução desses conceitos para a realidade física da página de quadrinhos o artista tem uma quantidade enorme de controle.

A menos que o escritor seja Alan Moore, a maior parte dos roteiros de quadrinhos é relativamente econômica – é o formato preferido da indústria de hoje – com apenas uma ou duas frases da descrição do painel antes de entrar no diálogo. Obviamente alguns painéis são descritos com grandes blocos de texto do escritor, mas a maioria deles não. Não estou julgando essa prática de jeito algum mas se fosse fazer isso diria que ela faz muito sentido. Ela ajuda o escritor a expressar o básico da história de forma mais eficiente, ajuda os editores a verem a essência da história de forma mais clara e dá às pessoas com melhor habilidade de visualização (os artistas) a chance de usá-las de forma criativa, sem sentirem-se presas pelas palavras de um escritor que pode não compreender a melhor forma de expressar uma narrativa visualmente.

Mas isso significa que os artistas carregam o maior peso do ponto de vista. Para dar um exemplo, veja algo como as competições Comic Book Idol do CBR em que vários artistas apresentam páginas com base nos mesmos roteiros. O significado de cada versão difere radicalmente, precisamente porque o ponto de vista (e tom, a que eu vou chegar mais tarde, como prometido) depende tanto do que (aparece) e do como a página foi desenhada. Ou olhar para o primeiro volume de “Rawhide Kid” Marvel Masterworks – lá, Jack Kirby desenhou o mesmo script de Stan Lee duas vezes, com meses de diferença, provavelmente não percebendo que tinha desenhado a mesma história duas vezes. Cada versão tem um ponto de vista visual, mesmo que as páginas se baseiem nas mesmas palavras de Stan Lee.

Isto não deveria ser surpreendente de modo algum. Talvez você esteja pensando, “ah, sem brincadeira! Os artistas são os principais contadores de histórias em quadrinhos.” Mas então porque é que os escritores obtêm mais crédito (ou culpa) quando uma revista em quadrinhos é lançada? Se o ponto de vista é uma parte tão essencial da narrativa (e é) e nós pensamos que provavelmente um romance famoso escrito de um ponto de vista completamente diferente (acho que “Moby Dick”, do ponto de vista de Ahab, ou de uma Terceira Pessoa Limitada, por exemplo) seria uma história fundamentalmente diferente de cada modo significativo, mesmo que o enredo e os personagens fossem os mesmos, então, que tanto da “escrita” é feito no script, e que tanto é feita na tradução do roteiro para a arte?

Em outras palavras, “Hulk” # 20 é um gibi de Jeph Loeb com arte de Ed McGuinness ou um de Ed McGuinness baseada em um script de Jeph Loeb? Eu não acho que seja tão simples como dizer que é uma colaboração entre os dois, embora haja certamente algum mérito em pensar que, como Kieron Gillen assinalou no passado, é quase impossível analisar as contribuições da equipe de criação a ponto de se poder identificar quem é responsável por quais partes das histórias em quadrinhos, e assim talvez fosse melhor pensar em quadrinhos como sendo a criação de um criador amalgamado, um escritor / artista composto, digamos Loeb-McGuinness.

(Eu sei que estou deixando de fora o arte-finalista e o colorista neste exemplo, mas em “Hulk” # 20, que seria de Dexter Vines e Dave Stewart, que são os melhores arte-finalista e colorista no mercado, espero que eles me perdoem a omissão.)

Mas eu iria mais longe do que Gillen quando se trata de quadrinhos. Eu daria, se pensasse claramente sobre isso – e eu estou tentando pensar hoje – a maior parte do crédito de cada aspecto da história ao artista.

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