antes de passar a palavra ao sr. Callahan, lembro de o Jean Okada comentar aqui mesmo, neste blog, que quando desenha o roteiro de outra pessoa toma posse dele como se fosse seu. é um jeito legal de sintetizar os 5 raciocínios do bom e velho Tim.
agora, fiquem com o sujeito:
RACIOCÍNIO # 4: É LIVRE, INDIRETAMENTE
Mencionei que eu voltaria à ideia de que na maior parte dos gibis a narração é de “ambos” e “ninguém” Terceira Pessoa e / ou Primeira Pessoa. Então aqui vai.
A maior parte da narração nos quadrinhos escorrega pro que poderia ser chamado, nos círculos literários, de Discurso Indireto Livre. Não é uma nomenclatura perfeita. Discurso Indireto Livre é, basicamente, a narração de terceira pessoa, que simula o fraseado e a tonalidade que combina com a narração em primeira pessoa. É como se a personalidade do protagonista começasse a exercer maior controle sobre o suposto narrador em terceira pessoa objetiva. Isso acontece em romances de Jane Austen e, às vezes, pode ser confundido com fluxo de consciência mas é limitado a uma “concha” de terceira pessoa narrativa, daí que não é bem assim.
E apesar de o discurso indireto livre não se ajustar perfeitamente aos quadrinhos, é algo bastante próximo. É o que acontece quando a narração visual objetiva conta o grosso da história, mas um ponto de vista de primeira pessoa se instala em alguns recordatórios. Uma história de Batman é na maior parte em terceira pessoa mas quando vemos trechos do Black Casebook Morrisoniano ou temos os seus pensamentos Frank Miller-escos, vemos que a narrativa é na verdade uma forma fluida, onde domina a terceira pessoa, mas a primeira pessoa vem à superfície em intervalos selecionados.
Porque o Discurso Indireto Livre é uma técnica de escrita em que há uma chance para o escritor de quadrinhos exercer algum controle narrativo, determinando quando e onde os pensamentos do personagem vêm à tona, é uma das poucas oportunidades nos quadrinhos contemporâneos em que podemos dizer “Sim, isso é algo sobre o qual o artista não tem controle.”
RACIOCÍNIO # 5: Mas e sobre?
Discurso Indireto Livre
Ainda assim, tenho pensado há muito tempo em mim mesmo como alguém que segue os escritores, em vez de os artistas. E agora estamos afundados até os joelhos na era do escritor nos quadrinhos populares, em que os artistas pulam de uma série pra outra mas um escritor pode ficar por ali por vários anos e causar algum impacto.
Então o que queremos dizer quando dizemos que gostamos de um escritor de quadrinhos? Que seguimos um escritor de quadrinhos, não importa onde ele ou ela vá?
No que exatamente estamos nos segurando, se tanto da escrita em quadrinhos está nas mãos do artista?
Acho que estamos ficamos com o “é a sensibilidade do escritor.” A forma como um escritor enfatiza certos tipos de histórias ou retorna a um determinado conjunto de temas. A forma como um escritor estrutura uma história de longo prazo, independentemente de quem pode ou não desenhar as edições individuais.
Gene Colan pode ter desenhado muito das hqs “O Demolidor” de Stan Lee e Roy Thomas mas os números escritos por Stan têm uma sensibilidade diferente dos de Roy Thomas, mesmo que a abordagem de ritmo, de diálogo e de edições individuais tenham sido semelhantes em muitos aspectos superficiais. E talvez Kieron Gillen esteja certo, e o criador amalgamado Lee-Colan é um animal diferente do criador Thomas-Colan. Mas isso não explicaria porque a sensibilidade literária de Stan Lee é tão dominante em tantas diferentes séries em quadrinhos dos anos 1960. Ou por que a voz autoral de Roy Thomas é tão consistente, mesmo que não tão vistosa como a de tantos outros.
Independentemente do artista, você provavelmente não confundirá um quadrinho de Brian Michael Bendis com um de Grant Morrison. Ou um de Jason Aaron com um de J. Michael Straczynski.
Suas vozes autorais ecoam pelas histórias, mesmo que seus colaboradores artístico dominem a maior parte do que consideramos os principais aspectos da escrita, quando fazemos a comparação com a prosa.
Afinal, claro, os quadrinhos não são prosa. São explicitamente visuais de um modo que a prosa nunca poderá ser. Quando lemos um romance, imaginamos todos os detalhes visuais de modo diverso – os personagens e cenário podem parecer radicalmente diferentes, dependendo de nosso próprio contexto, de nossa própria história -, mas com as histórias em quadrinhos, está tudo lá, reluzindo bem na nossa cara. As hqs são literarizadas pelos artistas, de modo que eles controlam a narrativa.
Suponho que, se eu tivesse um raciocínio final sobre este assunto, seria o seguinte: quando você está falando de quadrinhos, escrevendo sobre histórias em quadrinhos, ou, em geral, pensando em quadrinhos, considere que o escritor pode conduzir o barco, mas o artista construiu cada centímetro do navio, e é uma porra enorme, imponente, multi-facetada e maravilhosa de navio. Feita de lápis e tinta.
E todos os escritores de quadrinhos que eu conheço tendem a concordar.
Além de escrever resenhas e colunas para o Comic Book Resources, Timothy Callahan é o autor de “Grant Morrison: The Early Years” e editor da antologia “Teenagers from the Future: Essays on the Legion of Super-Heroes”. Mais de suas ideias sobre histórias em quadrinhos podem ser encontradas regularmente no blog Firemelon Geniusboy.