silêncio/alucinação
Tem essa ‘visão’ tornando-se obsessão. É, discuti o assunto com uns três caras nos últimos, o quê?, dez anos, mas não consegui definir em palavras o que quero dizer, muito menos exemplificar.
A ‘coisa’ deve ter se insinuado pra mim numa das conversas telefônicas com um colaborador em que tratávamos dum assunto ‘caro’ pra ambos, a produção de certos autores que chamávamos ‘caligráficos’, devido à economia de seus estilos e à facilidade de reconhecê-los. Millazzo, Pratt, Toth, Miller, Muñoz, Kojima e seus herdeiros, Risso, Campbell, Matsumoto e um punhado de outros.
Escrevi várias vezes sobre isso, sobre o material que compõe uma HQ e a necessidade de trazê-lo em rédea curta o bastante pra que o leitor veja as palavras e leia os desenhos… afinal, tanto ícone quanto palavra, em HQs, são elementos visuais.
Penso em recursos poéticos e estilísticos usados por Camões e Machado pra aproximar o indefinível e a ausência da percepção do leitor.
Silêncio em HQ nunca, jamais, vai ser economia de palavras. Uma HQ verdadeiramente silenciosa não é aquela em que limaram onomatopéias ou que só faz uso de balões de pensamento ou recordatórios com narrativa em off. Tampouco é aquela em que não há sequer uma palavra, em que tudo se resume a uma pantomima das personagens em cenários ricamente detalhados e painéis sem-fim mostrando tudo…
Não.
O texto da HQ é icônico e lingüístico, portanto uma HQ silenciosa é uma que mais sugere que mostra. A HQ silenciosa é uma ausência de elementos, a eliminação de redundâncias, não necessariamente ‘algo que é’ determinada ‘coisa’.
Minimalismo.
Calhas largas, ausência delas, tempo indeterminado.
Alucinação.
Publicado em 05/25/2009 de 3:51 am e arquivado sobre bastidores 1, seqüenciais com as tags ego, meta, seqüenciais. Você pode acompanhar qualquer resposta por meio do RSS 2.0 feed. Você pode deixar uma resposta, ou trackback do seu próprio site.
05/27/2009 às 6:47 pm
opa! propus um pequeno debate lá no blog sobreofim/.
queria saber tua opinião! já que o assunto parece te interessar, cara! se puder dá uma passada lá.
então, quanto a tua conclusão aqui, sobre siliencio não tenho muita certeza se estou de acordo. mas me parece que talvez possa estar relacionado um quadrinho com uma associação mais forte com a poesia e as artes visuais do que com a literatura e o cinema, como costuma acontecer. me parece. abraço!
05/27/2009 às 8:33 pm
penso que as seqüenciais são linguagem antes de mais nada… e linguagem visual. ser um excelente ilustrador não garante que alguém seja um bom artista de hqs. a gente tem vários exemplos de pessoas que, mesmo usando a ilustração comedidamente, atingem efeitos inéditos no uso da linguagem porque mobilizam mais forças do que só um desenho bonito. o Jean Okada outro dia tava falando disso no blog dele. lembro de pelo menos um autor indie brasileiro que, usando basicamente closes e close-ups, cria uma impressão de subjetividade animal. é a visão do cara. a interpretação dele da ‘realidade’… enfim, claro que as palavras, e o resto da narrativa ideo-gráfica estão de acordo pro cara chegar nesse efeito.
e quando falo de ’silêncio’ não tou falando de ausência de palavras quando se trata de seqüenciais… tou simplesmente falando de ‘ausência’, dig?
vou checar o debate!