silêncio/alucinação

Tem essa ‘visão’ tornando-se obsessão. É, discuti o assunto com uns três caras nos últimos, o quê?, dez anos, mas não consegui definir em palavras o que quero dizer, muito menos exemplificar.

A ‘coisa’ deve ter se insinuado pra mim numa das conversas telefônicas com um colaborador em que tratávamos dum assunto ‘caro’ pra ambos, a produção de certos autores que chamávamos ‘caligráficos’, devido à economia de seus estilos e à facilidade de reconhecê-los. Millazzo, Pratt, Toth, Miller, Muñoz, Kojima e seus herdeiros, Risso, Campbell, Matsumoto e um punhado de outros.

Escrevi várias vezes sobre isso, sobre o material que compõe uma HQ e a necessidade de trazê-lo em rédea curta o bastante pra que o leitor veja as palavras e leia os desenhos… afinal, tanto ícone quanto palavra, em HQs, são elementos visuais.

Penso em recursos poéticos e estilísticos usados por Camões e Machado pra aproximar o indefinível e a ausência da percepção do leitor.

Silêncio em HQ nunca, jamais, vai ser economia de palavras. Uma HQ verdadeiramente silenciosa não é aquela em que limaram onomatopéias ou que só faz uso de balões de pensamento ou recordatórios com narrativa em off. Tampouco é aquela em que não há sequer uma palavra, em que tudo se resume a uma pantomima das personagens em cenários ricamente detalhados e painéis sem-fim mostrando tudo…

Não.

O texto da HQ é icônico e lingüístico, portanto uma HQ silenciosa é uma que mais sugere que mostra. A HQ silenciosa é uma ausência de elementos, a eliminação de redundâncias, não necessariamente ‘algo que é’ determinada ‘coisa’.

Minimalismo.

Calhas largas, ausência delas, tempo indeterminado.

Alucinação.

2 Respostas para “silêncio/alucinação”

  1. opa! propus um pequeno debate lá no blog sobreofim/.
    queria saber tua opinião! já que o assunto parece te interessar, cara! se puder dá uma passada lá.

    então, quanto a tua conclusão aqui, sobre siliencio não tenho muita certeza se estou de acordo. mas me parece que talvez possa estar relacionado um quadrinho com uma associação mais forte com a poesia e as artes visuais do que com a literatura e o cinema, como costuma acontecer. me parece. abraço!

    • amoraes Diz:

      penso que as seqüenciais são linguagem antes de mais nada… e linguagem visual. ser um excelente ilustrador não garante que alguém seja um bom artista de hqs. a gente tem vários exemplos de pessoas que, mesmo usando a ilustração comedidamente, atingem efeitos inéditos no uso da linguagem porque mobilizam mais forças do que só um desenho bonito. o Jean Okada outro dia tava falando disso no blog dele. lembro de pelo menos um autor indie brasileiro que, usando basicamente closes e close-ups, cria uma impressão de subjetividade animal. é a visão do cara. a interpretação dele da ‘realidade’… enfim, claro que as palavras, e o resto da narrativa ideo-gráfica estão de acordo pro cara chegar nesse efeito.

      e quando falo de ’silêncio’ não tou falando de ausência de palavras quando se trata de seqüenciais… tou simplesmente falando de ‘ausência’, dig?

      vou checar o debate!

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