over

Ela anda em minha direção, um de seus sorrisos tímidos, marca registrada de ontologia pessoal, verniz de mistério nutrido em silêncio. Desajeitado tento sair de seu caminho mas ela me alcança com voz partida (primeiro touché?) pelo medo.

Posso te dar um beijo?

(É o Vertigium deprimindo meu sistema nervoso central que faz com que me curve e lhe ofereça livre acesso à minha face?)

Claro.

Isso foi então. Agora apanho essa memória queimada sob a pele e ela quase escapa entre meus dedos. Quantos centímetros quadrados de nossos corpos se tocaram? Quantos mililitros de sua saliva ficaram em mim?

Espano um tanto do pó acumulado pelos anos e o descamar da pele, e tento esticar as inevitáveis rugas, cicatrizes de tristezas e felicidades pequeninas.

A memória ainda é bela e significativa.

Minha coordenação motora que nunca foi perfeita voltou mais ou menos ao normal desde que interrompi o consumo compulsivo do remédio e perdi mais de dez quilos. Reencontrei a graça nas palavras e ela veio a mim, a intenção do beijo cortando fundo carne e ossos.

Brinque com a memória.

Eu não poderia, acho, mesmo que tivesse o estímulo certo. A defasagem espaço-temporal era grande demais pra minhas pernas na época e seria moral e legalmente errado.

Agora posso tentar jogar esse jogo de representação, de atuação textual, esse jogo de palavras que, ao fim e ao cabo, me deixará exatamente no mesmo lugar que sou eu, ou que estou eu, ao menos no momento.

Tudo muda.

Eu mudo. Não falo, silencio.

Hoje talvez me arriscasse a aumentar a área de contato entre nossos corpos e satisfazer a fome que sinto pela pele dela. Hoje… posso olhar no espelho e lembrar de como eu era aos 23 anos. Como estava aos 23. exceto por todo cabelo que alimenta sabe-se lá o quê no solo rico dos aterros sanitários anônimos, cemitérios de meus cabelos há dez anos. E, claro, as cicatrizes já mencionadas. Olho no espelho e do outro lado ele (que gosto de imaginar como um animal fabuloso que mimetiza meus contornos) olha de volta. No abismo de sua íris castanha vejo a menina e seu olhar expressivo e seus cabelos claros e sua pele fresca vindo em minha direção e minha esquiva falha e minha coluna que se flexiona e o calor de seus lábios queimando minha pele e, não, não mudo coisa alguma.

Game over.

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