clique!

Diferente do que se pode pensar, minha atividade favorita não é escrever, mas, isso sim, negociar com os mortos, escarafunchar seus pensamentos e humores e percepções, fantasmas, instantâneos de consciência que, gosto muito de nutrir essa idéia-ilusão, mudaram com os anos e experiência.

Em troca dou-lhes meu tempo e o que um dia foram suas sacadas voltam a florescer e podem ser admirados de uma nova perspectiva enriquecida pela história e, quem sabe, colonizar mais umas tantas resmas de papel.

Quando alguém cita Shakespeare, e estou citando Borges, torna-se Shakespeare et al.

Isso aí.

Quanto à escritura, o frisson do clique! é o que me faz percorrer essa trilha tantas vezes, repetindo meus passos e rituais ainda mais arcaicos… a finalidade, o clique!, independe da qualidade do texto, tem a ver com penetrar essa zona de consciência em que conceitos disparatados e linhas narrativas ultrajantes de repente se encaixam e fazem sentido, inundando centros de prazer e recompensa com opióides endógenos, o verdadeiro pagamento.

O tesão real só chega mesmo quando tenho o ato tão bem trabalhado que posso variar o registro da linguagem a ponto de expressar as idéias em vozes diferentes, acrescentando uma camada de graça à coisa toda, ao processo.

Não tão fácil.

Sam Clemens disse tudo não num livro, numa carta, quando escreveu algo como, desculpe por escrever tanto, é que estou sem tempo pra escrever pouco. Taí, numa casca de noz: espaço-tempo e o que fazemos com essa matéria-prima está diretamente relacionado aos resultados que alcançamos.

Ter muito espaço e pouco tempo pra preenchê-lo produz material redundante, frouxo, sem graça. Ter muito tempo e pouco espaço dá uma frustração do caralho. Ficar sobre um texto que tem que resultar em duzentas palavras polindo e polindo, tirando excessos, adiposidade e que tais pode acidentalmente deixar de fora elementos preciosos. Nesse segundo caso o ponto de partida precisa ser claro e objetivo… pode rolar verborragia na hora de expressar uma idéia complexa e fica difícil dar um tom coloquial ao discurso.

O ideal (ilusão) é o equilíbrio, mas isso só se torna realidade com, veja só, experiência.

2 Respostas para “clique!”

  1. Falou tudo sem dizer muito!!!

    É isso aí!

    Já andou com seu novo projeto ou continua no mundo das idéias?

    Nunca deixe de dar voz aos mortos!

    Hasta

  2. valeu, Matheus-San!

    enchi mais umas páginas com idéias visuais e a boneca russa (VIDAS)tomou forma. falta mesmo juntar uns pedaços de momentos livres e escrever o roteiro. tudo mapeado.

    agora tenho duas idéias pra graphic-nouvellettes (48pp cada) que devo pôr no papel em breve.

Deixe uma resposta